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Reportagem
Abestadão/Governo Federal

Bancos e fundos ficam com a maior parte de R$ 1,2 trilhão em juros pagos em 12 meses

O setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros nos 12 meses até setembro, 17 vezes o déficit primário e 7,6 vezes o orçamento do Bolsa Família. Mais da metade dos títulos da dívida federal está com bancos e fundos de investimento. O pequeno poupador do Tesouro Direto tem 3,1%.

Por Redação do Abestadão2 min de leitura
Charge em aquarela diante do Congresso, em Brasília: numa mesa de banquete, caricaturas de Paulo Guedes, André Esteves e Jorge Paulo Lemann, com guardanapo no pescoço, devoram mais da metade de uma torta gigante escrita Juros R$ 1,2 tri; de pé, uma caricatura de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, vestido de mordomo, serve mais uma fatia numa bandeja de prata; atrás, uma enfermeira, uma professora e um motorista carregam bandejas pesadas, suando; na ponta da mesa, um homem pequeno com a plaquinha Tesouro Direto olha para uma migalha.Charge
Caricaturas de Paulo Guedes, André Esteves e Jorge Paulo Lemann à mesa, e de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, como mordomo. A cena é satírica. Charge gerada por IA sob direção da redação, com fotos públicas do Wikimedia Commons como referência das caricaturas. Caricatura, não fotografia.

Nos 12 meses até setembro, o setor público brasileiro pagou R$ 1,205 trilhão de juros sobre a dívida, segundo o Banco Central. É 8,99% de tudo o que o país produziu no período, o maior percentual desde janeiro de 2016. Um ano antes, a conta tinha sido de R$ 984,8 bilhões. Subiu R$ 220 bilhões em um ano.

Para ter a medida: o valor dá R$ 5.625 por brasileiro, bebê incluído, pela população estimada pelo IBGE. Paga 7,6 vezes o orçamento do Bolsa Família de 2026, de R$ 158,6 bilhões. E é 17 vezes o déficit primário do mesmo período, de R$ 70,1 bilhões. Déficit primário é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta com saúde, escola, aposentadoria, obra e salário, sem contar os juros. É dele que os editoriais falam todo dia.

Infográfico: R$ 1,205 trilhão em juros em 12 meses até setembro de 2026, 17 vezes o déficit primário; 54,3% da dívida federal com bancos e fundos de investimento; 3,1% com os pequenos investidores do Tesouro Direto

Quem recebe

Juro de dívida pública não some. É a renda de quem tem título público. E o Tesouro diz, todo mês, quem tem. Em setembro, segundo o Relatório Mensal da Dívida, as instituições financeiras tinham 31,3% da dívida federal interna, e os fundos de investimento, 22,9%. Juntos, 54,3%: mais da metade. Os fundos de pensão tinham 22,4%, e investidores estrangeiros, 9,6%. O resto, 13,8%, fica com seguradoras, governo e outros.

Na outra ponta está o poupador que compra título pela internet. O Tesouro Direto tem 3,9 milhões de investidores ativos e R$ 279,3 bilhões aplicados. Contra os R$ 9,04 trilhões da dívida mobiliária interna, é 3,1%. Quando alguém defende a Selic alta em nome do “pequeno investidor”, é desses 3,1% que está falando.

Se os juros se dividissem na proporção dos títulos, a conta é simples: bancos e fundos de investimento ficaram com cerca de R$ 650 bilhões em um ano. Não é exato, porque cada tipo de título rende diferente, mas a ordem de grandeza é essa. E mais da metade da dívida federal, 51,6%, rende pela própria Selic. Cada ponto que o Copom mantém na taxa vira, quase na hora, receita para quem tem esses títulos.

Quem paga

Quem paga é o orçamento, isto é, todo mundo. O arcabouço fiscal limita o gasto primário, mas não os juros: não há meta para eles nem votação para pagá-los. A conta cresce sozinha, a cada reunião do Copom que mantém a Selic onde está.

É disso que trata a proposta de André Lara Resende de baixar a Selic para 7,5% em um ano, que irritou os especuladores financeiros na segunda-feira. Pela conta dele, a mudança economizaria cerca de 4% do PIB por ano. Hoje, o Copom se reúne de novo e decide a taxa amanhã, quarta-feira (4). Ela está em 13,75%. Cada ponto a menos é dinheiro que deixa de sair do orçamento público como juros, e sobra para o que os 214 milhões de brasileiros usam.

Fontes

Temas: Contas públicas, Dívida pública, Juros

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