Bancos e fundos ficam com a maior parte de R$ 1,2 trilhão em juros pagos em 12 meses
O setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros nos 12 meses até setembro, 17 vezes o déficit primário e 7,6 vezes o orçamento do Bolsa Família. Mais da metade dos títulos da dívida federal está com bancos e fundos de investimento. O pequeno poupador do Tesouro Direto tem 3,1%.
ChargeNos 12 meses até setembro, o setor público brasileiro pagou R$ 1,205 trilhão de juros sobre a dívida, segundo o Banco Central. É 8,99% de tudo o que o país produziu no período, o maior percentual desde janeiro de 2016. Um ano antes, a conta tinha sido de R$ 984,8 bilhões. Subiu R$ 220 bilhões em um ano.
Para ter a medida: o valor dá R$ 5.625 por brasileiro, bebê incluído, pela população estimada pelo IBGE. Paga 7,6 vezes o orçamento do Bolsa Família de 2026, de R$ 158,6 bilhões. E é 17 vezes o déficit primário do mesmo período, de R$ 70,1 bilhões. Déficit primário é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta com saúde, escola, aposentadoria, obra e salário, sem contar os juros. É dele que os editoriais falam todo dia.

Quem recebe
Juro de dívida pública não some. É a renda de quem tem título público. E o Tesouro diz, todo mês, quem tem. Em setembro, segundo o Relatório Mensal da Dívida, as instituições financeiras tinham 31,3% da dívida federal interna, e os fundos de investimento, 22,9%. Juntos, 54,3%: mais da metade. Os fundos de pensão tinham 22,4%, e investidores estrangeiros, 9,6%. O resto, 13,8%, fica com seguradoras, governo e outros.
Na outra ponta está o poupador que compra título pela internet. O Tesouro Direto tem 3,9 milhões de investidores ativos e R$ 279,3 bilhões aplicados. Contra os R$ 9,04 trilhões da dívida mobiliária interna, é 3,1%. Quando alguém defende a Selic alta em nome do “pequeno investidor”, é desses 3,1% que está falando.
Se os juros se dividissem na proporção dos títulos, a conta é simples: bancos e fundos de investimento ficaram com cerca de R$ 650 bilhões em um ano. Não é exato, porque cada tipo de título rende diferente, mas a ordem de grandeza é essa. E mais da metade da dívida federal, 51,6%, rende pela própria Selic. Cada ponto que o Copom mantém na taxa vira, quase na hora, receita para quem tem esses títulos.
Quem paga
Quem paga é o orçamento, isto é, todo mundo. O arcabouço fiscal limita o gasto primário, mas não os juros: não há meta para eles nem votação para pagá-los. A conta cresce sozinha, a cada reunião do Copom que mantém a Selic onde está.
É disso que trata a proposta de André Lara Resende de baixar a Selic para 7,5% em um ano, que irritou os especuladores financeiros na segunda-feira. Pela conta dele, a mudança economizaria cerca de 4% do PIB por ano. Hoje, o Copom se reúne de novo e decide a taxa amanhã, quarta-feira (4). Ela está em 13,75%. Cada ponto a menos é dinheiro que deixa de sair do orçamento público como juros, e sobra para o que os 214 milhões de brasileiros usam.
Fontes
- Juros da dívida pública chegam a R$ 1,2 trilhão em 12 meses, aponta Banco Central
Juros nominais de R$ 1,205 trilhão (8,99% do PIB) em 12 meses até setembro de 2026, o maior percentual desde janeiro de 2016, contra R$ 984,8 bilhões (7,86%) um ano antes; déficit primário de R$ 70,1 bilhões (0,52% do PIB).
Reportagem regional que reproduz as Estatísticas Fiscais do BC; números conferidos no Poder360.
- Dívida bruta fica em 82,9% do PIB, diz Banco Central
Os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,205 trilhão em 12 meses até setembro, e R$ 107,5 bilhões só em setembro.
- Dívida Pública sobe 0,97% em setembro e encosta em R$ 9,4 trilhões
Em setembro, instituições financeiras tinham 31,33% da dívida pública federal interna; fundos de investimento, 22,93%; fundos de pensão, 22,41%; não residentes, 9,58%; demais grupos, 13,76%. A dívida federal chegou a R$ 9,383 trilhões, 51,6% atrelada à Selic.
- Dívida pública federal atingiu R$ 9,3 trilhões em setembro de 2026
A dívida pública mobiliária federal interna (DPMFi) passou de R$ 8,944 trilhões em agosto para R$ 9,037 trilhões em setembro.
- Investimentos no Tesouro Direto somam R$ 8,77 bi em setembro
O estoque do Tesouro Direto chegou a R$ 279,3 bilhões em setembro, com 3.924.677 investidores ativos.
- Orçamento de 2026 confirma R$ 158 bilhões para o Bolsa Família
A Lei Orçamentária de 2026 reservou R$ 158,63 bilhões para o Bolsa Família.
- Brasil chega a 214,2 milhões de habitantes em 2026, diz IBGE
O IBGE estimou 214.211.951 habitantes no Brasil em 1º de julho de 2026.


