Lara Resende propõe Selic de 7,5%, e os especuladores ficam irritados
Um dos pais do Plano Real defende baixar os juros básicos de 13,75% para 7,5% em um ano, porque é o juro, e não o gasto, que faz a dívida pública crescer. Em 12 meses, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros, 17 vezes o déficit primário. A ideia chegou ao programa de governo de Lula, e a reação mais dura veio justamente de quem vive de especular com o capital.
ChargeAndré Lara Resende não é um economista de esquerda. Ajudou a desenhar o Plano Real, presidiu o BNDES no governo Fernando Henrique e passou parte da vida em bancos. Em 25 de setembro, publicou no Substack um texto que começa com uma acusação: o Banco Central sustenta, “em nome de uma teoria anacrônica”, os juros que mais desequilibram as contas públicas. E fez uma proposta de número redondo: levar a Selic de 13,75% para perto de 7,5% ao ano, em cerca de 12 meses.
A proposta ficou um mês circulando entre economistas. Nesta segunda-feira (2), virou assunto de governo. José Sergio Gabrielli, coordenador do programa da campanha de Lula, escreveu num estudo sobre a política fiscal de 2027 que ela “merece atenção especial”. Aí a Faria Lima acordou.
A conta que ninguém põe no editorial
O argumento de Lara Resende é aritmético. A dívida bruta brasileira cresce cerca de 12,7% ao ano, e o PIB nominal, cerca de 7%. A diferença não vem de hospital nem de Bolsa Família. Vem do juro que o próprio Banco Central fixa e que o Tesouro paga sobre a dívida.
O Banco Central publicou os números na semana passada. Nos 12 meses até setembro, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros, 8,99% do PIB, o maior percentual desde janeiro de 2016. No mesmo período, o déficit primário, que é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta com tudo menos juros, foi de R$ 70,1 bilhões, 0,52% do PIB. Os juros custaram 17 vezes o déficit primário. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB.
Gabrielli resumiu no mesmo estudo: “A trajetória da razão dívida/PIB é fundamentalmente movida pelo comportamento dos juros”.
O que a proposta diz
Os 7,5% não saíram do chapéu. Somam a meta de inflação, de 3%, ao crescimento que a economia consegue ter sem acelerar preços, estimado em 2,5%, mais uma margem de segurança de 2 pontos. Pela proposta, a queda seria gradual e anunciada com antecedência. Um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, mais amplo que o atual Conselho Monetário Nacional, fixaria metas para os dois lados por quatro ou cinco anos. Se o dólar disparasse na transição, o Banco Central usaria as reservas internacionais para segurar o câmbio. Lara Resende estima que a mudança economizaria cerca de 4% do PIB por ano em juros.
A irritação
A reação veio rápida e veio de endereço conhecido. Felipe Miranda, fundador da Empiricus, que vende recomendações de investimento, disse que admira o autor “como intelectual”, mas acha a proposta “muito ruim”. Jason Vieira, economista-chefe da distribuidora de títulos Lev DTVM, foi mais curto: “Ridículo, simplesmente ridículo”. Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, ironizou no X: aceitaria a ideia se Lara Resende assumisse a Fazenda e mantivesse todos os seus bens no Brasil, em reais. Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro e ex-economista-chefe do Santander, achou arriscado usar as reservas numa “aposta”.
O argumento comum é que juro baixo por decisão política assusta o investidor, derruba o real e traz a inflação de volta. É um risco real, e a própria proposta admite que o câmbio pode sofrer no começo. Mas ele quase sempre chega desacompanhado da outra metade da conta: o R$ 1,205 trilhão por ano tem destinatário. Juro da dívida pública é receita de quem tem título da dívida pública. Para esses, a Selic de 13,75% não é um problema a resolver. É o rendimento do mês.
Nem todo crítico é da Faria Lima. José Luis Oreiro, professor da UnB, concorda que o juro é o que pesa na dívida, mas acha que a solução “padece de um voluntarismo ingênuo”: sem mudar antes a estrutura da dívida, prevê uma crise cambial.
O que o governo diz
Por ora, nada muda. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que não há proposta de tabelamento de juros na mesa de Lula e negou que haja reunião marcada com Lara Resende. A Selic continua nas mãos do Copom, que se reúne nesta terça e quarta (3 e 4). Hoje a taxa está em 13,75%. Na conta do Tesouro, a dívida continua crescendo mais rápido que o país.
Fontes
- Conheça a proposta de André Lara Resende para limitar juros
Lara Resende propõe reduzir a Selic gradualmente, em cerca de 12 meses, para perto de 7,5% ao ano e criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional; a dívida bruta cresce cerca de 12,7% ao ano, e o PIB nominal, cerca de 7%.
Resume texto publicado no Substack do economista em 25/9/2026.
- Coordenador do programa de governo Lula endossa ideia de Lara Resende
Os 7,5% somam a meta de inflação (3%), o crescimento real potencial (2,5%) e uma margem de 2 pontos; a proposta prevê uso das reservas para suavizar o câmbio e estima economia de cerca de 4% do PIB ao ano. José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, endossou a ideia.
- 'Muito ruim', 'ridícula' e 'voluntarismo ingênuo': economistas criticam proposta de Lara Resende para Selic a 7,5%
Felipe Miranda (Empiricus) chamou a proposta de "muito ruim"; Jason Vieira (Lev DTVM), de "ridícula"; José Luis Oreiro (UnB) viu "voluntarismo ingênuo"; Alexandre Schwartsman ironizou no X; Ana Paula Vescovi criticou o uso das reservas.
- Selic a 7,5% para conter a dívida? Proposta de Lara Resende ganha apoio no PT e provoca reação
Gleisi Hoffmann elogiou o artigo; o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que não há proposta de tabelamento de juros na mesa de Lula e negou reunião marcada com Lara Resende.
- Juros da dívida pública chegam a R$ 1,2 trilhão em 12 meses, aponta Banco Central
Nos 12 meses até setembro de 2026, o setor público consolidado pagou R$ 1,205 trilhão de juros nominais (8,99% do PIB, o maior percentual desde janeiro de 2016); o déficit primário foi de R$ 70,1 bilhões (0,52% do PIB); a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB.
Reportagem regional que reproduz as Estatísticas Fiscais do BC; números conferidos em outras duas reportagens.
- Juros de R$ 1,2 trilhão, e não investimentos sociais, são o problema fiscal do Brasil, diz Gabrielli
No estudo distribuído em 2/11, Gabrielli escreveu que a dívida é movida pelos juros e que a proposta de Lara Resende merece atenção especial.


