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São Paulo, terça-feira, 3 de novembro de 2026
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Reportagem
Abestadão/Governo Federal

Lara Resende propõe Selic de 7,5%, e os especuladores ficam irritados

Um dos pais do Plano Real defende baixar os juros básicos de 13,75% para 7,5% em um ano, porque é o juro, e não o gasto, que faz a dívida pública crescer. Em 12 meses, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros, 17 vezes o déficit primário. A ideia chegou ao programa de governo de Lula, e a reação mais dura veio justamente de quem vive de especular com o capital.

Por Redação do Abestadão4 min de leitura
Charge em aquarela na avenida Faria Lima, em São Paulo: especuladores financeiros anônimos, de colete acolchoado e mocassim, abraçam e protegem com o corpo um enorme cofrinho dourado escrito Juros R$ 1,2 tri, enquanto um deles pisa num jornal amassado com a manchete Eu acuso; num letreiro eletrônico do prédio, Selic 7,5%?; à direita, um motorista de ônibus, uma enfermeira e uma vendedora ambulante olham a cena desconfiados.Charge
Charge. Os personagens são fictícios. Charge gerada por IA sob direção da redação. Não é fotografia.

André Lara Resende não é um economista de esquerda. Ajudou a desenhar o Plano Real, presidiu o BNDES no governo Fernando Henrique e passou parte da vida em bancos. Em 25 de setembro, publicou no Substack um texto que começa com uma acusação: o Banco Central sustenta, “em nome de uma teoria anacrônica”, os juros que mais desequilibram as contas públicas. E fez uma proposta de número redondo: levar a Selic de 13,75% para perto de 7,5% ao ano, em cerca de 12 meses.

A proposta ficou um mês circulando entre economistas. Nesta segunda-feira (2), virou assunto de governo. José Sergio Gabrielli, coordenador do programa da campanha de Lula, escreveu num estudo sobre a política fiscal de 2027 que ela “merece atenção especial”. Aí a Faria Lima acordou.

XGleisi Hoffmann, deputada federal (PT-PR)Gleisi cita o artigo de Lara Resende: “Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio”.Abrir no X

A conta que ninguém põe no editorial

O argumento de Lara Resende é aritmético. A dívida bruta brasileira cresce cerca de 12,7% ao ano, e o PIB nominal, cerca de 7%. A diferença não vem de hospital nem de Bolsa Família. Vem do juro que o próprio Banco Central fixa e que o Tesouro paga sobre a dívida.

O Banco Central publicou os números na semana passada. Nos 12 meses até setembro, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão de juros, 8,99% do PIB, o maior percentual desde janeiro de 2016. No mesmo período, o déficit primário, que é a diferença entre o que o governo arrecada e o que gasta com tudo menos juros, foi de R$ 70,1 bilhões, 0,52% do PIB. Os juros custaram 17 vezes o déficit primário. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB.

XFernando Horta, historiador e comentaristaA diferença entre o déficit primário, de que todo mundo fala, e o peso dos juros.Abrir no X

Gabrielli resumiu no mesmo estudo: “A trajetória da razão dívida/PIB é fundamentalmente movida pelo comportamento dos juros”.

O que a proposta diz

Os 7,5% não saíram do chapéu. Somam a meta de inflação, de 3%, ao crescimento que a economia consegue ter sem acelerar preços, estimado em 2,5%, mais uma margem de segurança de 2 pontos. Pela proposta, a queda seria gradual e anunciada com antecedência. Um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, mais amplo que o atual Conselho Monetário Nacional, fixaria metas para os dois lados por quatro ou cinco anos. Se o dólar disparasse na transição, o Banco Central usaria as reservas internacionais para segurar o câmbio. Lara Resende estima que a mudança economizaria cerca de 4% do PIB por ano em juros.

XFernando Horta, historiador e comentaristaA proposta admite o risco do câmbio e prevê o uso das reservas.Abrir no X

A irritação

A reação veio rápida e veio de endereço conhecido. Felipe Miranda, fundador da Empiricus, que vende recomendações de investimento, disse que admira o autor “como intelectual”, mas acha a proposta “muito ruim”. Jason Vieira, economista-chefe da distribuidora de títulos Lev DTVM, foi mais curto: “Ridículo, simplesmente ridículo”. Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, ironizou no X: aceitaria a ideia se Lara Resende assumisse a Fazenda e mantivesse todos os seus bens no Brasil, em reais. Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro e ex-economista-chefe do Santander, achou arriscado usar as reservas numa “aposta”.

O argumento comum é que juro baixo por decisão política assusta o investidor, derruba o real e traz a inflação de volta. É um risco real, e a própria proposta admite que o câmbio pode sofrer no começo. Mas ele quase sempre chega desacompanhado da outra metade da conta: o R$ 1,205 trilhão por ano tem destinatário. Juro da dívida pública é receita de quem tem título da dívida pública. Para esses, a Selic de 13,75% não é um problema a resolver. É o rendimento do mês.

Nem todo crítico é da Faria Lima. José Luis Oreiro, professor da UnB, concorda que o juro é o que pesa na dívida, mas acha que a solução “padece de um voluntarismo ingênuo”: sem mudar antes a estrutura da dívida, prevê uma crise cambial.

O que o governo diz

Por ora, nada muda. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que não há proposta de tabelamento de juros na mesa de Lula e negou que haja reunião marcada com Lara Resende. A Selic continua nas mãos do Copom, que se reúne nesta terça e quarta (3 e 4). Hoje a taxa está em 13,75%. Na conta do Tesouro, a dívida continua crescendo mais rápido que o país.

Fontes

Temas: Contas públicas, Dívida pública, Juros

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