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Reportagem
Abestadão/Internacional

Cai o presidente do Paraguai; apesar dos escândalos, Santiago Peña renuncia com direito a imunidade vitalícia

Acuado pela quebra do banco ueno, Peña renunciou horas antes de a Câmara votar o impeachment. Se o Congresso aceitar a renúncia, ele vira senador vitalício, com foro. Se fosse destituído, perderia tudo.

Por Redação do Abestadão3 min de leitura
Charge em aquarela: à esquerda, o prédio do banco ueno pega fogo, com as portas acorrentadas e a placa Cerrado, e uma multidão de poupadores paraguaios ergue carteiras vazias e cartões; ao centro, uma caricatura de Santiago Peña, sorridente, está sentada numa poltrona vermelha com a placa Vitalicio, dentro de uma redoma de vidro; à direita, um juiz com martelo e uma promotora com uma ordem de prisão batem no vidro sem conseguir entrar; ao fundo, Assunção e o Palácio de López.Charge
Caricatura de Santiago Peña. A cena é satírica. Charge gerada por IA sob direção da redação, com o retrato de Santiago Peña de junho de 2026 (Wikimedia Commons, domínio público) como referência. Caricatura, não fotografia.

Santiago Peña, do Partido Colorado, deixou a Presidência do Paraguai nesta quinta-feira (5). Saiu do Palácio de López acuado pela quebra do banco ueno, que congelou o dinheiro de cerca de 3 milhões de clientes, e sem o apoio do próprio partido. Mas saiu do jeito que mais lhe convinha: pela renúncia, e não pelo impeachment.

A diferença vale uma imunidade para o resto da vida.

A renúncia, com o impeachment já na pauta

Peña anunciou a decisão num vídeo gravado, enquanto a Câmara dos Deputados lia as acusações do juízo político contra ele.

He tomado la decisión de presentar mi renuncia a la Presidencia de la República.

“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República”, disse. Falou em paz social e em preservar as instituições e terminou assim: “A história se encarregará de julgar e de pôr em sua justa dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe viver”.

O golpe final veio de casa. Horas antes, Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e padrinho da candidatura de Peña em 2023, anunciou que a bancada apoiaria o impeachment: “Não estaremos do lado do roubo dos fundos públicos, privados e dos aposentados”. O presidente do Congresso, Basilio “Bachi” Núñez, também colorado, já tinha pedido a renúncia.

A carta foi levada ao Congresso pelo ministro do Interior, Enrique Riera. A Constituição diz que cabe ao Congresso aceitar ou rejeitar a renúncia do presidente. Aceita, assume o vice, Pedro Alliana, para completar o mandato até 2028.

O que o ueno levou

O ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes. Em 29 de outubro, avisou ao Banco Central que não conseguia repor uns US$ 70 milhões que tinha usado do encaixe obrigatório. Em 2 de novembro, o Banco Central mandou liquidá-lo. Desde então, o dinheiro dos clientes está bloqueado. O banco também administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões de dinheiro público.

O Ministério Público denunciou 27 pessoas, entre elas o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o vice-presidente e fundador, Miguel Vázquez, que teve a prisão preventiva decretada. Os poupadores começam a receber na sexta-feira (6) um adiantamento do fundo de garantia, limitado a 121,7 milhões de guaranis por pessoa.

O pedido de impeachment tem cinco acusações. Ele aponta omissão do governo diante das irregularidades do grupo e operações de cerca de US$ 123 milhões com empresas ligadas aos donos do banco. Peña foi acionista da ueno Holding, empresa do mesmo grupo. Ele diz que vendeu as ações e que nunca teve vínculo com o banco.

Por que renunciar compensa

O artigo 189 da Constituição paraguaia diz:

Los ex presidentes de la República, electos democráticamente, serán senadores vitalicios de la Nación, salvo que hubiesen sido sometidos a juicio político y hallados culpables.

Ou seja: todo ex-presidente eleito vira senador vitalício, a não ser que tenha sido condenado em juízo político. O senador vitalício tem voz, mas não vota. E tem foro: não pode ser preso, salvo em flagrante, e só pode ser processado se o Senado retirar a imunidade dele.

Quem renuncia antes da votação nunca é condenado. O senador Líder Amarilla, do Partido Liberal, resumiu a conta: se Peña renunciar, conserva o foro de senador vitalício. Se for destituído pelo impeachment, perde toda a imunidade e fica à disposição da Justiça.

A oposição quer o impeachment mesmo assim

A oposição promete rejeitar a renúncia e seguir com o juízo político até o fim. “Não aceitamos a renúncia de Santiago Peña”, disse a senadora Esperanza Martínez. “Rejeitamos o foro para Santiago Peña.” Para ela, a renúncia é um acordo de impunidade.

A conta não ajuda a oposição. A Câmara precisa de dois terços para acusar, e o Senado, de dois terços, 30 dos 45 senadores, para condenar. Os colorados, que controlam o Congresso, querem aceitar a renúncia e dar posse a Alliana ainda nesta quinta-feira.

Se isso acontecer, o homem que governava o país quando o banco de 3 milhões de paraguaios quebrou vai trocar a faixa presidencial por uma cadeira vitalícia no Senado. Os poupadores, enquanto isso, esperam na fila do fundo de garantia.

Fontes

  • Santiago Peña no resiste el escándalo de ueno y renuncia a la Presidencia de Paraguay · Última Hora, 05/11/2026. Consultada em 05/11/2026

    Peña renunciou depois de três anos e dois meses no cargo, antes de a Câmara analisar o pedido de impeachment, em nome da paz social e da preservação das instituições. O Banco Central mandou liquidar o ueno; 27 pessoas foram denunciadas, entre elas o vice-presidente do banco, Miguel Vázquez, e o presidente, Juan Manuel Gustale. Pelo artigo 234, o vice Pedro Alliana assume.

  • Crisis política en Paraguay EN VIVO · Infobae, 05/11/2026. Consultada em 05/11/2026

    Cerca de 3 milhões de clientes do ueno estão com o dinheiro bloqueado; o banco administrava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões do Estado. O pedido de juízo político tem cinco acusações, entre elas omissão do Executivo e operações de cerca de US$ 123 milhões com empresas ligadas. O senador Líder Amarilla (PLRA) explicou que, se renunciar, Peña conserva o foro de senador vitalício; se for destituído, perde toda a imunidade. O ministro do Interior, Enrique Riera, entregou a carta ao Congresso.

  • EN VIVO, Caso Ueno: Santiago Peña renunció a la presidencia de la República · ABC Color, 05/11/2026. Consultada em 05/11/2026

    A senadora Esperanza Martínez disse que a oposição não aceita a renúncia e rejeita foro para Peña. A destituição em juízo político exige 30 dos 45 senadores. O Banco Central fixou adiantamento do fundo de garantia de até G. 121.760.000 por depositante, com pagamentos a partir de sexta-feira (6).

    Página de cobertura ao vivo, atualizada ao longo do dia.

  • Peña renuncia a la Presidencia · La Nación (Paraguai), 05/11/2026. Consultada em 05/11/2026

    Peña anunciou a renúncia enquanto a Câmara tramitava o libelo acusatório do juízo político, depois de o Banco Central determinar a liquidação do ueno e o Ministério Público denunciar e prender diretores do banco.

  • Terremoto político en Paraguay: renunció el presidente Santiago Peña · Infopico, 05/11/2026. Consultada em 05/11/2026

    Em 29/10, o ueno avisou ao Banco Central que não conseguia repor cerca de US$ 70 milhões do encaixe; a liquidação foi aberta em 2/11. Horacio Cartes, presidente do Partido Colorado e padrinho da candidatura de Peña em 2023, anunciou que a bancada apoiaria o juízo político.

  • Peña deja de ser accionista de ueno Holding y asegura que nunca tuvo vinculación con ueno bank · Última Hora, 15/07/2026. Consultada em 05/11/2026

    Peña afirma que deixou de ser acionista da ueno Holding e que nunca teve vínculo com o banco ueno.

    Versão do próprio Peña.

  • Constitución de Paraguay de 1992 (reformada em 2011) · Constitute Project, 01/01/2011. Consultada em 05/11/2026

    Art. 189: ex-presidentes eleitos democraticamente são senadores vitalícios, salvo se condenados em juízo político; não contam para quórum e têm voz, mas não voto. Art. 191: imunidades dos parlamentares. Art. 202, inciso 16: o Congresso aceita ou rejeita a renúncia do presidente. Art. 225: a Câmara acusa por dois terços e o Senado julga por dois terços. Art. 234: o vice substitui o presidente.

Temas: Democracia, Renda

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