Lula manda recado claro aos especuladores: Brasil vai bem, obrigado
Cobrado por ajuste fiscal, o presidente disse que pegou o governo no vermelho, que entrega o Orçamento com superávit e que o pobre não vai pagar a conta. Os dados confirmam os oito anos de superávit e mostram que 95% do rombo nominal é juro; o “déficit de 2,8%” herdado não aparece nas estatísticas.
ChargeNa sexta-feira (6), depois de uma reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética, em Brasília, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi cobrado, mais uma vez, por um ajuste fiscal que os especuladores financeiros consideram pequeno. A resposta veio em forma de recado, e o recado foi o de sempre: o Brasil vai bem, obrigado.
“Alguém pode falar que esse governo não tem responsabilidade fiscal?”
O Abestadão separou as frases do presidente e foi atrás dos números oficiais de cada uma. Há afirmações que os dados confirmam com sobra, outras que eles corrigem, e uma conta que quase ninguém faz em voz alta.
“Quantos países têm a seriedade fiscal que nós temos?”
“Quantos países têm a seriedade fiscal que nós temos? Qual é a dívida interna dos Estados Unidos? Da França? Do Japão? Da Itália? Perto da nossa, é o dobro em relação ao PIB.”
Pelo Fundo Monetário Internacional, que mede todos os países da mesma forma, a dívida bruta do Brasil fechou 2025 em 93,3% do PIB. A do Japão estava em 204,8%, a da Itália em 137,1%, a dos Estados Unidos em 124,4% e a da França em 115,5%. O Brasil deve menos, proporcionalmente, que qualquer um dos quatro citados. O dobro, porém, só vale para o Japão: a dívida americana é um terço maior que a brasileira, e a francesa, um quarto maior. A lista completa do G20 está nesta reportagem do Abestadão.
“Nem é tudo o que aparece”
“Se a gente for analisar a nossa dívida de verdade, ela nem é tudo o que aparece.”
“Se coloca como dívida pública brasileira o que não é.”
Aqui a queixa tem base técnica. A dívida bruta do Banco Central, de R$ 11,1 trilhões (82,9% do PIB) em setembro, inclui R$ 1,37 trilhão em operações compromissadas, que o próprio BC usa para enxugar dinheiro da economia e controlar os juros, não para pagar despesa do governo. Pelo conceito do FMI, que também conta os títulos parados na carteira do Banco Central, a mesma dívida vira 94,5% do PIB. E a dívida líquida, que desconta o que o país tem a receber, inclusive US$ 362,6 bilhões em reservas internacionais, fica em 70% do PIB.
O problema não some com a conta: a dívida bruta subiu de 71,4% do PIB em janeiro de 2023 para 82,9% agora. O que o presidente diz é que o número que assusta o noticiário é o maior de todos, e isso é verdade.
“Nós pegamos esse governo com déficit de 2,8%”
“E vocês, da imprensa, que estão aqui, eu vou dizer: nós pegamos esse governo com déficit de 2,8%.”
Essa é a frase que os dados não confirmam. Em 2022, último ano de Bolsonaro, o governo central fechou com superávit de R$ 54,1 bilhões (0,5% do PIB), e o setor público inteiro, com superávit de 1,25%, segundo o Banco Central. O número de 2,8% não aparece em nenhuma estatística oficial daquele ano.
O que o governo herdou foi outra coisa: uma fila de precatórios, as dívidas judiciais da União, empurrada para a frente pela emenda aprovada em 2021. Em 2023, o governo pagou R$ 92,4 bilhões desses atrasados de uma vez, e o ano fechou com déficit de R$ 230,5 bilhões (2,1% do PIB). Sem os precatórios, o rombo seria de 1,3%. A conta era do governo anterior; o déficit de 2,8% herdado, não.
“Estamos entregando o Orçamento agora com superávit”
“E estamos entregando o Orçamento agora com superávit.”
O projeto de Orçamento de 2027 prevê, de fato, superávit: R$ 18,6 bilhões, ou 0,1% do PIB, sem truque contábil. Com os abatimentos de precatórios permitidos em lei, o resultado chega a R$ 83,4 bilhões (0,6%), acima da meta de 0,5%. A Instituição Fiscal Independente do Senado duvida e projeta déficit de R$ 86,1 bilhões, o que obrigaria a novos bloqueios.
O caminho até aqui foi de déficits pequenos: 0,40% do PIB em 2024 e 0,43% em 2025 no setor público, com a meta de 2025 cumprida graças às despesas que a lei manda contar fora dela.
“O único presidente que fez superávit todo ano”
“Eu tenho comigo a minha história. Eu fui o único presidente, de 2003 a 2010, que fiz superávit primário todo ano.”
Os oito anos se confirmam. O setor público teve superávit primário em todos eles, de 3,74% do PIB em 2005 a 1,94% em 2009, o ano da crise mundial. O “único” é discutível: Fernando Henrique Cardoso também terminou o governo com superávit (3,19% do PIB em 2002). Dilma, Temer e Bolsonaro tiveram déficit em pelo menos dois anos cada; o Lula do terceiro mandato, também.
“Ele quer tudo”
![Card de citação: “Não é o que o sistema financeiro quer, porque ele quer tudo. […] É o que a gente pode fazer”, Lula (PT)](/arte/lula-citacao-quer-tudo-1024.webp)
“Não é o que o sistema financeiro quer, porque ele quer tudo. Não. É o que a gente pode fazer.”
Os números dão razão ao presidente na parte que mais incomoda. Em 12 meses até setembro, o setor público pagou R$ 1,205 trilhão em juros, 8,99% do PIB. O déficit primário, aquele que mede gasto contra arrecadação e que move toda a cobrança por cortes, foi de 0,52%. Somados, dão o déficit nominal de 9,51% do PIB: 95% dele é juro. Com a Selic em 13,75%, quem ganha com a dívida é quem a carrega, e o Abestadão já mostrou quem fica com esse dinheiro.

“O pobre não vai pagar a conta”
“O pobre não vai pagar a conta. Nós não levaremos o povo pobre a nenhum sacrifício.”
“Esse país vai continuar com responsabilidade social.”
O desemprego ficou em 5,2% no trimestre até setembro, o menor para esse período desde que o IBGE começou a série, em 2012. A economia cresceu 2,3% em 2025. A inflação é o ponto fraco do recado: 4,58% em 12 meses até setembro, acima do teto da meta de 4,5%.
O recado, então, chega com uma correção e com uma conta. A correção: Lula não herdou déficit de 2,8%; herdou superávit e uma pilha de precatórios. A conta: do rombo nominal, cerca de cinco centavos em cada real vêm da diferença entre gasto e arrecadação; os outros 95 vão para os juros. É sobre essa parte que os especuladores costumam preferir silêncio.
Fontes
- Lula diz que dívida pública 'nem é tudo o que aparece' e repete que o pobre não pagará a conta
Falas de Lula a jornalistas depois da reunião extraordinária do CNPE: seriedade fiscal, dívida dos EUA e da França, déficit herdado, Orçamento com superávit e o pobre que não paga a conta.
A reportagem não indica a fonte dos números de dívida que cita.
- Lula defende política fiscal, mas minimiza preocupação com dívida pública brasileira
Falas sobre a dívida que “nem é tudo o que aparece” e sobre o histórico de superávits; dívida bruta de 82,9% do PIB.
- Lula rebate mercado e promete blindar pobres em ajuste fiscal
Fala sobre o ajuste possível e a comparação com Estados Unidos, França, Japão e Itália.
- Lula: ajuste fiscal sem que os pobres paguem a conta
Confirma o evento (reunião extraordinária do CNPE) e a comparação com a dívida de outros países.
- Resultado primário do setor público consolidado, % do PIB, acumulado em 12 meses (série 5793)
Superávit em todos os anos de 2003 a 2010 (de 1,94% a 3,74% do PIB); superávit de 1,25% em 2022; déficits de 2,28% (2023), 0,40% (2024), 0,43% (2025) e 0,52% em 12 meses até setembro de 2026.
A série começa em novembro de 2002.
- Dívida pública chega a 82,9% do PIB e soma R$ 11,1 trilhões
Dívida bruta de R$ 11,1 trilhões (82,9% do PIB) e líquida de cerca de 70% em setembro de 2026; juros nominais de R$ 1,205 trilhão em 12 meses (8,99% do PIB).
- Raio X da Dívida, agosto de 2026
Dívida bruta pelo conceito do Banco Central (82,9%) e pelo do FMI (94,5%), que inclui os títulos na carteira do BC; operações compromissadas de R$ 1.372,1 bilhões.
Dados de agosto de 2026.
- General government gross debt, percent of GDP (GGXWDG_NGDP)
Em 2025: Japão 204,8%, Itália 137,1%, EUA 124,4%, França 115,5%, Reino Unido 102,1%, Brasil 93,3% e Alemanha 62,7% do PIB.
Conceito do FMI, diferente da dívida bruta do Banco Central.
- RAF nº 116: análise do PLOA 2027
O projeto de Orçamento de 2027 prevê superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões e de R$ 83,4 bilhões (0,6% do PIB) com os abatimentos legais; meta de 0,5%. A IFI projeta déficit efetivo de R$ 86,1 bilhões.
- Déficit do Governo Central chega a R$ 230,5 bilhões em 2023, pior desde 2020, aponta Tesouro
Déficit de R$ 230,5 bilhões (2,1% do PIB) em 2023, com R$ 92,4 bilhões de precatórios atrasados; sem eles, 1,3% do PIB.
- Checagem do debate Lula × Flávio Bolsonaro na Band
O governo central fechou 2022 com superávit de R$ 54,1 bilhões (0,5% do PIB), segundo o Tesouro.
Fonte secundária; o valor coincide com a série do Banco Central para o setor público, que também registra superávit em 2022.
- Déficit primário do governo central totaliza R$ 61,7 bilhões em 2025
Déficit de R$ 61,7 bilhões (0,48% do PIB) em 2025; descontadas as despesas autorizadas fora da meta, cerca de R$ 13 bilhões (0,1%).
- Taxa de desocupação (PNAD Contínua) e IPCA em 12 meses (séries 24369 e 13522)
Desemprego de 5,2% no trimestre até setembro de 2026, o menor para esse trimestre desde 2012; IPCA de 4,58% em 12 meses até setembro, acima do teto da meta (4,5%); Selic de 13,75% desde 17/9.
A menor taxa da série é de 5,1%, no trimestre até dezembro de 2025.


