Lula se torna símbolo mundial da democracia contra o fascismo
Reeleito com 64,2 milhões de votos contra um adversário apoiado por Trump e pela família que tentou um golpe, Lula foi saudado por Bruxelas, Paris e Madri como vitória da democracia. O derrotado pediu a anulação do resultado sem prova; a Casa Branca não reconheceu.
IlustraçãoO que o mundo viu

Na noite de 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral proclamou Luiz Inácio Lula da Silva reeleito com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. É o quarto mandato presidencial de Lula pelo voto direto, algo que nenhum brasileiro alcançou. Na manhã seguinte, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, resumiu em uma frase o que as chancelarias repetiram ao longo do dia: “A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”.
Não foi uma felicitação protocolar. António Costa, presidente do Conselho Europeu, telefonou para Lula no domingo à noite e escreveu que “o povo brasileiro falou”. Emmanuel Macron pediu o reforço da parceria estratégica “diante dos grandes desafios do nosso tempo”. Pedro Sánchez, que enfrenta eleição antecipada na Espanha, foi além: “O que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha”. Os primeiros-ministros dos Países Baixos e de Portugal se somaram. Na América Latina, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que a democracia prevaleceu, e até o chileno José Antonio Kast, de direita, ligou para cumprimentar.
Por que a eleição brasileira virou símbolo
A Associated Press, a agência mais lida do mundo, abriu sua análise com a tese de que Lula “freou a guinada regional à direita e negou a Trump um aliado poderoso”. A sequência de fatos que a agência descreve é o que transformou uma eleição nacional em teste global. Donald Trump impôs tarifas de dois dígitos sobre produtos brasileiros para punir o Brasil pela responsabilização de Jair Bolsonaro por trama golpista. Flávio Bolsonaro fez campanha prometendo aderir “com grande entusiasmo e grande honra” à coalizão de segurança liderada pelos Estados Unidos. O apoio ostensivo de Washington aos Bolsonaro, escreve a AP, “reforçou a mensagem de Lula e alimentou uma reação nacionalista” sintetizada no grito “o Brasil é dos brasileiros”.
O cientista político Kenneth Roberts, da Universidade Cornell, explicou à agência o mecanismo: quando uma potência regional ameaça as instituições democráticas de um país, “defender a soberania nacional brasileira também se torna uma forma de defender a democracia brasileira”. Lula disse o mesmo com palavras próprias no discurso da vitória: o resultado é “uma demonstração de que este país não aceita ser o quintal de ninguém”. A frase vem de longe. Na tribuna da ONU, em setembro de 2025, ele já havia dito que “a pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”, e em 2026, doze dias antes do 1º turno, voltou a apresentar a escolha como democracia ou extremismo, soberania ou subordinação.
A palavra do título é dele. Em julho de 2021, Lula definiu a disputa contra os Bolsonaro como uma escolha “entre o fascismo e a democracia”. Cinco anos, uma tentativa de golpe e um julgamento depois, o eleitorado fez a escolha pela segunda vez, agora contra o filho, e o mundo democrático leu o resultado exatamente nesses termos, mesmo sem usar a palavra.
O outro lado não reconheceu
O contraste completa o símbolo. Flávio Bolsonaro não admitiu a derrota: pediu a anulação do resultado e prometeu “explicar suas suspeitas”, sem apresentar prova. Trump, que havia apostado nele, não reconheceu a reeleição até a manhã de segunda-feira. Três dias depois, Flávio deixou o país por Puerto Iguazú e pousou em Miami, como o Abestadão mostrou na peça sobre os R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro.
O professor sul-africano Lyal White, no Daily Maverick, escreveu que a eleição “carrega significado geopolítico muito além da América Latina” e foi “uma rejeição à tentativa da família Bolsonaro de voltar ao poder”, ao mesmo tempo em que expôs “a resiliência da democracia brasileira e a fragilidade de seu arranjo político”. Ele e a AP fazem a mesma ressalva, que esta peça registra: a vitória foi de 3,6 pontos, a direita segue forte no Congresso e a maré regional não virou. O símbolo é real; o que ele simboliza é uma democracia que resistiu por margem apertada, não uma que descansou.
Os números
| Indicador | Valor | Período | Território | Método |
|---|---|---|---|---|
| Votos no 2º turno | 64.256.232 × 59.826.041 votos válidos (51,79% × 48,21%) | 25 de outubro de 2026 | Brasil | Totalização do TSE Fonte |
| Municípios vencidos | 2.875 × 2.695 municípios (Lula × Flávio) | 2º turno de 2026 | Brasil | Apuração por município, conforme Exame Fonte |
| Chefes de governo e instituições que saudaram a vitória como democrática | 6 citados pela Euronews em 26/10 | 26 de outubro de 2026 | Europa | Von der Leyen, Costa, Macron, Sánchez, Jetten, Montenegro Fonte |
Fontes
- Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026
Lula: 64.256.232 votos (51,79% dos válidos); Flávio Bolsonaro: 59.826.041 (48,21%). Resultado anunciado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, em 25/10/2026.
Página do TSE não aberta diretamente; números conferidos em Vatican News e Bloomberg Línea, que a citam.
- 'Democracy has won': Europe celebrates Lula's surprise victory in Brazil
Reações de Ursula von der Leyen (Comissão Europeia), António Costa (Conselho Europeu: “The Brazilian people have spoken”), Emmanuel Macron (parceria estratégica) e Pedro Sánchez (“What has happened in Brazil will happen in Spain”); também Rob Jetten e Luís Montenegro. Vantagem de quase 4,4 milhões de votos.
- Lula bucks regional shift to the right and denies Trump a powerful ally in Brazil
Trump impôs tarifas ao Brasil para punir a responsabilização de Jair Bolsonaro por trama golpista; o apoio ostensivo aos Bolsonaro alimentou a reação nacionalista (“Brazil belongs to Brazilians”); Flávio prometeu aderir à coalizão de segurança dos EUA; Flávio não reconheceu a derrota e pediu anulação; Trump não havia reconhecido o resultado até a manhã de 26/10. Citação de Kenneth Roberts (Cornell).
- Brazil's election — a victory for Lula, a wake-up call for democracy
A eleição expôs “the resilience of Brazilian democracy and the fragility of its political settlement”; foi “a rejection of the Bolsonaro family's attempt to return to power”; Lula “bucked the broader regional drift towards conservative, often Trump-aligned leadership”.
Artigo de opinião; ressalva que a direita segue forte no Congresso.
- Discurso do presidente Lula na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU
Lula vinculou, na ONU, a defesa da democracia ao combate ao extremismo e à soberania dos países.
Discurso de 2025; o de 2026, segundo o Nexo, repetiu a oposição democracia × extremismo e soberania × subordinação.
- Brazil's 2022 presidential vote will be between 'fascism and democracy', ex-leader Lula says
Lula descreveu a disputa com os Bolsonaro como escolha entre fascismo e democracia, vocabulário que o título desta peça retoma.
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Legenda sugerida
Lula se torna símbolo mundial da democracia contra o fascismo No dia seguinte ao 2º turno, a presidente da Comissão Europeia disse que a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil, e a agência AP descreveu a vitória de Lula como freio à onda de governos alinhados a Trump na América Latina. O Abestadão explica por que a eleição brasileira virou referência mundial. Reeleito com 64,2 milhões de votos contra um adversário apoiado por Trump e pela família que tentou um golpe, Lula foi saudado por Bruxelas, Paris e Madri como vitória da democracia. O derrotado pediu a anulação do resultado sem prova; a Casa Branca não reconheceu. Matéria completa, com todas as fontes, no link da bio ou em https://abestadao.com.br/noticias/lula-se-torna-simbolo-mundial-da-democracia-contra-o-fascismo/ #Abestadão #Politica #Democracia #Eleicoes #JornalismoIndependente





