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Análise
Abestadão/Política

Lula se torna símbolo mundial da democracia contra o fascismo

Reeleito com 64,2 milhões de votos contra um adversário apoiado por Trump e pela família que tentou um golpe, Lula foi saudado por Bruxelas, Paris e Madri como vitória da democracia. O derrotado pediu a anulação do resultado sem prova; a Casa Branca não reconheceu.

Por Redação do Abestadão3 min de leitura
Charge em aquarela: caricatura de Lula, de terno, em pé sobre um globo terrestre, fazendo o sinal do L com a mão; em volta, uma multidão de pessoas de vários países, com bandeiras da França, Espanha, México, Alemanha, Colômbia, África do Sul, Índia, Chile, Portugal e Argentina, faz o mesmo L para ele sob confetes.Ilustração
Caricatura. A cena é satírica e não retrata um fato ocorrido. Charge gerada por IA sob direção da redação. Caricatura, não fotografia.

O que o mundo viu

Infográfico: 64.256.232 votos em Lula, 4º mandato, “venceram” segundo a União Europeia e zero reconhecimento de Trump e de Flávio

Na noite de 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral proclamou Luiz Inácio Lula da Silva reeleito com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. É o quarto mandato presidencial de Lula pelo voto direto, algo que nenhum brasileiro alcançou. Na manhã seguinte, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, resumiu em uma frase o que as chancelarias repetiram ao longo do dia: “A democracia e o multilateralismo venceram no Brasil”.

Não foi uma felicitação protocolar. António Costa, presidente do Conselho Europeu, telefonou para Lula no domingo à noite e escreveu que “o povo brasileiro falou”. Emmanuel Macron pediu o reforço da parceria estratégica “diante dos grandes desafios do nosso tempo”. Pedro Sánchez, que enfrenta eleição antecipada na Espanha, foi além: “O que aconteceu no Brasil vai acontecer na Espanha”. Os primeiros-ministros dos Países Baixos e de Portugal se somaram. Na América Latina, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que a democracia prevaleceu, e até o chileno José Antonio Kast, de direita, ligou para cumprimentar.

Por que a eleição brasileira virou símbolo

A Associated Press, a agência mais lida do mundo, abriu sua análise com a tese de que Lula “freou a guinada regional à direita e negou a Trump um aliado poderoso”. A sequência de fatos que a agência descreve é o que transformou uma eleição nacional em teste global. Donald Trump impôs tarifas de dois dígitos sobre produtos brasileiros para punir o Brasil pela responsabilização de Jair Bolsonaro por trama golpista. Flávio Bolsonaro fez campanha prometendo aderir “com grande entusiasmo e grande honra” à coalizão de segurança liderada pelos Estados Unidos. O apoio ostensivo de Washington aos Bolsonaro, escreve a AP, “reforçou a mensagem de Lula e alimentou uma reação nacionalista” sintetizada no grito “o Brasil é dos brasileiros”.

O cientista político Kenneth Roberts, da Universidade Cornell, explicou à agência o mecanismo: quando uma potência regional ameaça as instituições democráticas de um país, “defender a soberania nacional brasileira também se torna uma forma de defender a democracia brasileira”. Lula disse o mesmo com palavras próprias no discurso da vitória: o resultado é “uma demonstração de que este país não aceita ser o quintal de ninguém”. A frase vem de longe. Na tribuna da ONU, em setembro de 2025, ele já havia dito que “a pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”, e em 2026, doze dias antes do 1º turno, voltou a apresentar a escolha como democracia ou extremismo, soberania ou subordinação.

A palavra do título é dele. Em julho de 2021, Lula definiu a disputa contra os Bolsonaro como uma escolha “entre o fascismo e a democracia”. Cinco anos, uma tentativa de golpe e um julgamento depois, o eleitorado fez a escolha pela segunda vez, agora contra o filho, e o mundo democrático leu o resultado exatamente nesses termos, mesmo sem usar a palavra.

O outro lado não reconheceu

O contraste completa o símbolo. Flávio Bolsonaro não admitiu a derrota: pediu a anulação do resultado e prometeu “explicar suas suspeitas”, sem apresentar prova. Trump, que havia apostado nele, não reconheceu a reeleição até a manhã de segunda-feira. Três dias depois, Flávio deixou o país por Puerto Iguazú e pousou em Miami, como o Abestadão mostrou na peça sobre os R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro.

O professor sul-africano Lyal White, no Daily Maverick, escreveu que a eleição “carrega significado geopolítico muito além da América Latina” e foi “uma rejeição à tentativa da família Bolsonaro de voltar ao poder”, ao mesmo tempo em que expôs “a resiliência da democracia brasileira e a fragilidade de seu arranjo político”. Ele e a AP fazem a mesma ressalva, que esta peça registra: a vitória foi de 3,6 pontos, a direita segue forte no Congresso e a maré regional não virou. O símbolo é real; o que ele simboliza é uma democracia que resistiu por margem apertada, não uma que descansou.

Os números

IndicadorValorPeríodoTerritórioMétodo
Votos no 2º turno64.256.232 × 59.826.041
votos válidos (51,79% × 48,21%)
25 de outubro de 2026BrasilTotalização do TSE Fonte
Municípios vencidos2.875 × 2.695
municípios (Lula × Flávio)
2º turno de 2026BrasilApuração por município, conforme Exame Fonte
Chefes de governo e instituições que saudaram a vitória como democrática6
citados pela Euronews em 26/10
26 de outubro de 2026EuropaVon der Leyen, Costa, Macron, Sánchez, Jetten, Montenegro Fonte

Fontes

  • Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026 · Tribunal Superior Eleitoral, 25/10/2026. Consultada em 01/11/2026

    Lula: 64.256.232 votos (51,79% dos válidos); Flávio Bolsonaro: 59.826.041 (48,21%). Resultado anunciado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, em 25/10/2026.

    Página do TSE não aberta diretamente; números conferidos em Vatican News e Bloomberg Línea, que a citam.

  • 'Democracy has won': Europe celebrates Lula's surprise victory in Brazil · Euronews, 26/10/2026. Consultada em 01/11/2026

    Reações de Ursula von der Leyen (Comissão Europeia), António Costa (Conselho Europeu: “The Brazilian people have spoken”), Emmanuel Macron (parceria estratégica) e Pedro Sánchez (“What has happened in Brazil will happen in Spain”); também Rob Jetten e Luís Montenegro. Vantagem de quase 4,4 milhões de votos.

  • Lula bucks regional shift to the right and denies Trump a powerful ally in Brazil · Associated Press (Isabel DeBre), via PBS NewsHour, 26/10/2026. Consultada em 01/11/2026

    Trump impôs tarifas ao Brasil para punir a responsabilização de Jair Bolsonaro por trama golpista; o apoio ostensivo aos Bolsonaro alimentou a reação nacionalista (“Brazil belongs to Brazilians”); Flávio prometeu aderir à coalizão de segurança dos EUA; Flávio não reconheceu a derrota e pediu anulação; Trump não havia reconhecido o resultado até a manhã de 26/10. Citação de Kenneth Roberts (Cornell).

  • Brazil's election — a victory for Lula, a wake-up call for democracy · Daily Maverick (Lyal White, Gibs), 29/10/2026. Consultada em 01/11/2026

    A eleição expôs “the resilience of Brazilian democracy and the fragility of its political settlement”; foi “a rejection of the Bolsonaro family's attempt to return to power”; Lula “bucked the broader regional drift towards conservative, often Trump-aligned leadership”.

    Artigo de opinião; ressalva que a direita segue forte no Congresso.

  • Discurso do presidente Lula na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU · Nações Unidas (texto oficial em português), 23/09/2025. Consultada em 01/11/2026

    Lula vinculou, na ONU, a defesa da democracia ao combate ao extremismo e à soberania dos países.

    Discurso de 2025; o de 2026, segundo o Nexo, repetiu a oposição democracia × extremismo e soberania × subordinação.

  • Brazil's 2022 presidential vote will be between 'fascism and democracy', ex-leader Lula says · Euronews, 09/07/2021. Consultada em 01/11/2026

    Lula descreveu a disputa com os Bolsonaro como escolha entre fascismo e democracia, vocabulário que o título desta peça retoma.

Temas: Democracia, Eleições

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Lula se torna símbolo mundial da democracia contra o fascismo

No dia seguinte ao 2º turno, a presidente da Comissão Europeia disse que a democracia e o multilateralismo venceram no Brasil, e a agência AP descreveu a vitória de Lula como freio à onda de governos alinhados a Trump na América Latina. O Abestadão explica por que a eleição brasileira virou referência mundial.

Reeleito com 64,2 milhões de votos contra um adversário apoiado por Trump e pela família que tentou um golpe, Lula foi saudado por Bruxelas, Paris e Madri como vitória da democracia. O derrotado pediu a anulação do resultado sem prova; a Casa Branca não reconheceu.

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