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Reportagem
Abestadão/Política

Americanos pedem que Trump deporte Flávio Bolsonaro de volta ao Brasil

Uma semana depois de entrar nos Estados Unidos com autorização da Casa Branca, o senador virou alvo da hashtag #DeportTheBolsonaros, de cartazes de procurado em Nova York e de uma carta de 25 deputados democratas ao secretário de Estado, Marco Rubio. Nesta segunda (2), o líder democrata no Comitê de Supervisão da Câmara pediu que Rubio o mande de volta "para enfrentar a Justiça".

Por Redação do Abestadão4 min de leitura
Charge em aquarela na imigração do aeroporto de Miami: caricatura de Flávio Bolsonaro, de terno, puxando uma mala e segurando uma bandeirinha do Brasil, caminha sobre um tapete vermelho entre postes dourados, saudado por uma agente sorridente sob a placa Welcome to Miami; atrás da corda, americanos na fila erguem cartazes Deport the Bolsonaros e #DeportTheBolsonaros, e no balcão há um cartaz de procurado com o rosto dele.Ilustração
Caricatura. A cena é satírica; a agente e as pessoas na fila são fictícias. Charge gerada por IA sob direção da redação. Caricatura, não fotografia.

Flávio Bolsonaro levou uma semana para descobrir que os Estados Unidos têm dois governos. O de Donald Trump autorizou a entrada dele. O resto do país quer saber por quê.

O senador perdeu a eleição presidencial em 25 de outubro. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, mandou que ele entregasse os passaportes, num inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro. Flávio não entregou. Às 22h50 de 27 de outubro, segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, ele, a mulher e as filhas atravessaram a ponte Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu. De lá, um jatinho particular fez escala no Equador e pousou perto de Miami no dia 28. Segundo o New York Times, citado pela Revista Fórum, o avião foi providenciado por Jason Miller, assessor de comunicação ligado à Casa Branca e aliado antigo da família. O caminho até a fronteira o Abestadão já contou, na peça sobre o ex-agente do Mossad.

XMigrações da ArgentinaO registro oficial da entrada de Flávio e da família pela ponte de Foz do Iguaçu, às 22h50 de 27 de outubro.Abrir no X

A hashtag

Na mesma semana, a frase #DeportTheBolsonaros (“deportem os Bolsonaros”) começou a circular no X e em outras redes. O impulso inicial veio de perfis brasileiros. Depois vieram os americanos, e o argumento deles não era a democracia brasileira. Era o bolso do contribuinte americano.

O mais barulhento foi Isaiah Martin, candidato democrata ao Congresso pelo Texas. Só em 27 de outubro, ele publicou dez posts sobre o assunto. Num deles, prometeu que o próximo presidente democrata deveria deportar os dois irmãos Bolsonaro, Flávio e Eduardo, “no primeiro dia”. Em outro, sugeriu que o Brasil fosse buscá-lo “no meio da noite, de helicóptero”. E reclamou de pagar a segurança de quem chamou de foragido.

XIsaiah Martin, candidato democrata no Texas“Deportem os Bolsonaros de volta para o Brasil”, em 27 de outubro.Abrir no X
XIsaiah Martin, candidato democrata no TexasO próximo presidente democrata deveria deportar os dois irmãos Bolsonaro no primeiro dia de mandato, escreveu.Abrir no X
XIsaiah Martin, candidato democrata no Texas“Vamos deportá-lo no primeiro dia”, e a sugestão do helicóptero.Abrir no X
XIsaiah Martin, candidato democrata no Texas“Flávio Bolsonaro precisa ser deportado”, no dia em que ele pousou em Miami.Abrir no X

A ironia que pegou foi outra. O governo que faz da deportação de imigrantes sem documentos uma bandeira recebeu, com autorização da Casa Branca, um senador que deixou o país dele descumprindo ordem judicial. O deputado democrata Joaquin Castro resumiu numa linha: “perder uma eleição não é motivo para pedir asilo”. Os democratas da Comissão de Relações Exteriores da Câmara lembraram que não há asilo para quem foge da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti.

XUsuário do X com a hashtag“Que hipócrita”, com #DeportTheBolsonaros.Abrir no X
XVitor Mencarelli, comentarista brasileiroO registro de que os americanos estavam se mobilizando pela deportação.Abrir no X

Os deputados

Na noite de 29 de outubro, 25 deputados democratas mandaram ao secretário de Estado, Marco Rubio, uma carta com 15 perguntas. Querem saber se o Departamento de Estado, a embaixada em Brasília ou funcionários na Argentina e no Equador ajudaram na viagem. Querem saber também quando o governo soube da ordem de entrega do passaporte e com que base legal o senador entrou. O prazo para a resposta é 13 de novembro. A carta foi liderada por Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, que copreside a bancada da Câmara dedicada ao Brasil, e por Dina Titus, de Nevada.

XSydney Kamlager-Dove, deputada da Califórnia“O povo americano merece respostas sobre por que o governo Trump está abrigando um negacionista eleitoral e fraudador.”Abrir no X
XDelia Ramírez, deputada de Illinois“Dime con quién andas y te diré quién eres”: Trump, de novo, aparecendo para os amigos autoritários.Abrir no X

Nesta segunda-feira (2), Robert Garcia, o democrata mais graduado do Comitê de Supervisão da Câmara, foi além das perguntas. Em carta a Rubio, pediu que o senador seja devolvido ao Brasil: “O secretário Rubio deveria mandar Bolsonaro para casa, para enfrentar a Justiça”.

Os cartazes

No fim de semana do Halloween, uma brasileira de máscara espalhou por ruas e estações de metrô de Nova York cartazes com o rosto de Flávio e a palavra “procurado”, “por sérios crimes contra a democracia”. No vídeo, ela diz que o senador não é perseguido político, é alguém a ser deportado.

XCartazes em Nova YorkOs cartazes de procurado com o rosto de Flávio Bolsonaro, espalhados no fim de semana do Halloween.Abrir no X

Quem decide

Nenhum desses pedidos tem força para tirar Flávio do país. Deportação é decisão do Poder Executivo: do Departamento de Estado, que cuida dos vistos, e do Departamento de Segurança Interna, que cuida da imigração. “Não se pode pensar que o Congresso tem o poder de deportar alguém”, explicou Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM. O que a Câmara pode fazer é investigar e, se os democratas voltarem à maioria, convocar Rubio para depor.

Até lá, Flávio continua em Miami, com a autorização de quem decide. O mandato dele no Senado vai até 31 de janeiro de 2027. No Brasil, o inquérito continua aberto e o passaporte continua não entregue.

Fontes

Temas: Democracia

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