A pedido da polícia de SP, Milton Leite (União-SP) segue preso por elo com o PCC nos ônibus da capital
O ex-presidente da Câmara de São Paulo está na cadeia há 50 dias, suspeito de ser o dono de fato da Transwolff, a empresa de ônibus que a investigação liga à facção. Tarcísio, que lhe agradeceu a “parceria enorme”, agora fala em relação “institucional”.
ChargeMilton Leite (União-SP) passou 28 anos na Câmara Municipal de São Paulo, sete mandatos, e foi o presidente mais longevo da Casa desde a redemocratização. Desde 18 de setembro, está numa cela. E é a polícia do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) que pede para ele continuar lá.
A Operação Vectura Corrupta
Em 17 de setembro, a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo foram às ruas com 16 mandados de prisão e 18 de busca. O alvo é a infiltração do PCC nas empresas de ônibus da capital. Os investigadores suspeitam que até 12 das 22 operadoras do sistema estejam sob controle ou influência da facção, com corrupção de servidores, financiamento de campanhas e lavagem de dinheiro. Entre os presos está o ex-presidente da SPTrans Levi dos Santos Oliveira.
Leite não foi encontrado em casa naquele dia e chegou a ser considerado foragido. Apresentou-se no dia seguinte numa delegacia de Mogi das Cruzes. A prisão temporária tinha sido decretada pela 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça, depois que um juiz de primeira instância a negou. O STJ recusou soltá-lo em 23 de setembro.
Em 15 de outubro, a pedido da Polícia Civil e com parecer favorável do Ministério Público, a Justiça prorrogou a prisão por mais 30 dias, para “resguardar a integridade das fontes de prova digital”. Valeu para ele e para outros 12 investigados.
O dono de fato da Transwolff
A Transwolff é a empresa de ônibus que já tinha caído na Operação Fim da Linha, em abril de 2024, acusada de servir ao PCC. Policiais militares disseram, em outro procedimento, que Leite seria o dono de fato da empresa. O Tribunal de Justiça o descreve como “responsável direto pela operação de algumas das empresas controladas pelo PCC”. O Ministério Público o vê como o articulador político do grupo. Uma construtora ligada à família tinha contratos com a Transwolff que somaram perto de R$ 20 milhões até agosto de 2024.
A defesa tem um ponto: segundo a Folha, as representações que levaram à prisão não apontam pagamentos nem sociedade de Leite com as empresas. O nome dele aparece em depoimentos de PMs e num áudio apreendido. Num imóvel em Sorocaba ligado a um assessor, a polícia achou cerca de R$ 737 mil em dinheiro vivo.
“Eu não cometi nenhum crime e nada devo. Eu nego todas as acusações e tenho convicção de que sou inocente.”
A cela de Mogi
Na cadeia de Mogi das Cruzes, a história ganhou outro capítulo. O Ministério Público investigou suspeitas de regalias, a Polícia Civil afastou três delegados, um carcereiro e um investigador, e com o carcereiro foram encontrados cerca de R$ 155 mil e US$ 10 mil. Havia dois celulares na cela. Em 20 de outubro, Leite foi transferido para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos. A defesa nega qualquer regalia.
A parceria enorme
No lançamento das candidaturas dos filhos de Leite, Tarcísio subiu ao palco, abraçou a família e agradeceu ao pai pela “parceria enorme”. No dia da operação, a parceria encolheu: a relação “sempre foi institucional”, disse o governador, que contou ter sabido do pedido de prisão pela imprensa. O prefeito Ricardo Nunes (MDB), de quem Leite era aliado, foi mais curto:
“Cada um tem que responder pelos seus atos.”
Os eleitores não esperaram a Justiça. Em 4 de outubro, com o pai preso, Milton Leite Filho foi eleito deputado federal com 71.631 votos. A prorrogação da prisão vence em meados de novembro. Até lá, a polícia de Tarcísio segue investigando o aliado de Tarcísio, e os ônibus de São Paulo seguem rodando com a pergunta que ninguém no governo quer responder: quantos deles o PCC dirige?
Fontes
- Milton Leite tem prisão mantida pela Justiça em investigação sobre esquema ligado ao PCC
Prisão temporária decretada pela 8ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP e mantida na audiência de custódia; as representações não apontam pagamentos nem vínculos societários, segundo a Folha; fala do advogado.
- Juiz prorroga por 30 dias prisão de Milton Leite por relação do PCC no transporte público em SP
O juiz da Vara das Garantias de Organizações Criminosas prorrogou por 30 dias a prisão de Leite e de outros 12, a pedido da Polícia Civil e com parecer favorável do MP.
- Justiça prorroga prisão de Milton Leite, investigado por relação com o PCC
Fala de Leite na delegacia; prisão do ex-presidente da SPTrans; apreensão de cerca de R$ 737 mil em Sorocaba.
- Milton Leite é transferido para CDP de Guarulhos após suspeitas de regalias em Mogi das Cruzes
Transferência depois das suspeitas de regalias na cadeia de Mogi das Cruzes; dinheiro achado com um carcereiro e celulares na cela; a construtora ligada à família tinha contratos com a Transwolff.
Sem conclusão sobre as regalias; a defesa nega.
- Caso Milton Leite: Polícia Civil afasta delegados e diretor de cadeia
Afastamento de três delegados, um carcereiro e um investigador por suspeita de regalias.
- Relação institucional, diz Tarcísio sobre elo com Milton Leite
Tarcísio chamou a relação de institucional; antes, no lançamento das candidaturas dos filhos de Leite, agradecera a ele pela parceria.
- Cada um que responda pelos seus atos, diz Nunes sobre a prisão do aliado Milton Leite
Reação do prefeito Ricardo Nunes (MDB); o MP aponta Leite como articulador político do grupo.
- STJ mantém Milton Leite preso e nega pedido de soltura imediata
O ministro Rogério Schietti, do STJ, negou a liminar no habeas corpus.
O mérito do habeas corpus segue pendente.
- Prisão de Milton Leite e a disputa de poder dos filhos
Leite teve sete mandatos de vereador, de 1997 a 2024, e foi o presidente mais longevo da Câmara de São Paulo desde a redemocratização.
- Com o pai na prisão, Milton Leite Filho é eleito deputado federal por São Paulo
O filho de Leite foi eleito deputado federal em 4/10 com 71.631 votos.


