Sob Tarcísio, a polícia de SP já matou mais de 2.500 pessoas, uma a cada 12 horas. Nenhum policial foi condenado
As mortes por PMs em serviço quase dobraram entre 2023 e 2025 (+88%): foram 813 mortos pela polícia em 2024, 835 em 2025 e 480 só de janeiro a agosto de 2026. Até agora, nenhuma condenação de policial por essas mortes foi localizada; na Baixada, 17 de 23 inquéritos foram arquivados.
IlustraçãoA conta

Tarcísio de Freitas, do Republicanos, tomou posse em 1º de janeiro de 2023. Desde então, as polícias de São Paulo mataram, em serviço e de folga, 813 pessoas em 2024 e 835 em 2025, segundo as duas últimas edições do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que consolida os registros oficiais das secretarias estaduais. De janeiro a agosto de 2026, a própria Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) registrou mais 480, segundo levantamento da Ponte Jornalismo: 393 por agentes em serviço e 87 por agentes de folga, uma morte a cada 12 horas.
Só esses três períodos somam 2.128 mortos. O ano de 2023 não aparece em número absoluto nas fontes abertas consultadas, mas o Ministério Público conta 463 pessoas mortas apenas por policiais militares naquele ano (357 em serviço e 106 de folga), sem incluir a Polícia Civil. Somando, o governo Tarcísio passa de 2.500 mortos pela polícia, e o número cresce a cada mês. O Ministério Público, que usa outra base, chega mais longe: 877 mortos em 2025, o maior índice em seis anos.
O que mudou em 2023
A série do Ministério Público mostra o salto. PMs em serviço mataram 262 pessoas em 2022, último ano da gestão anterior; 357 em 2023; 653 em 2024; e 703 em 2025. Entre o primeiro e o terceiro ano de Tarcísio, as mortes por PMs em serviço cresceram 88%. O Anuário de 2025 registrou que o aumento paulista de 2024, de quase 61%, foi o maior do país, em um ano em que as mortes pela polícia caíram no Brasil. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública atribui a alta à Operação Escudo, na Baixada Santista, e ao esvaziamento do programa de câmeras corporais.
Em 2026 a curva não desceu. De janeiro a abril, foram 241 mortos, contra 233 no mesmo período de 2025; 227 pela PM e 14 pela Polícia Civil. Em abril, as mortes pela polícia equivaleram a 23% de todas as mortes violentas do estado, uma em cada quatro. No acumulado até agosto, 24%.
Nenhum policial condenado
A Operação Escudo começou em julho de 2023, depois da morte de um soldado da Rota no Guarujá, e a Operação Verão a seguiu em 2024. Segundo o relatório do Instituto Vladimir Herzog divulgado em 27 de julho de 2026, as duas deixaram 84 mortos. Dos 23 casos acompanhados pelo instituto, 17 foram arquivados pelo Ministério Público sem denúncia. Nove policiais viraram réus: quatro da Rota, pela morte de dois homens, e outros cinco, pela morte de quatro. Nenhum foi condenado até a publicação do relatório, que chama a operação de “símbolo da banalização da morte e da ausência de responsabilização do Estado”.
Fora da Baixada, o quadro é o mesmo. O Abestadão procurou, nas fontes abertas, alguma condenação de policial por morte ocorrida desde o início do governo Tarcísio e não encontrou nenhuma: nem no relatório do Instituto Vladimir Herzog, nem na cobertura dos júris paulistas, nem nas notas em que a SSP responde à imprensa falando em agentes “presos, demitidos ou expulsos”, sem citar uma sentença sequer. O padrão é anterior a Tarcísio, e o governo dele não o mudou. Pesquisa com dados do Tribunal de Justiça de São Paulo mostra que, de 1.293 ações policiais com morte na capital entre 2015 e 2020, 122 viraram denúncia e 20 terminaram em condenação: 1,5%. Na semana passada, em 30 de outubro, o Tribunal do Júri absolveu os dois PMs acusados de matar Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, em Paraisópolis, em julho de 2025.
O que diz o governo
Em nota à Agência Brasil, a SSP afirmou que “desde 2023, mais de 1,3 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações”, sem informar quantos por mortes. À TMC, disse que “todas as ocorrências de mortes decorrentes de intervenção policial são investigadas”, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário. Ao Metrópoles, a pasta comparou os dois primeiros anos da gestão com os dois últimos da anterior e falou em “redução de aproximadamente 25% nos números de mortes decorrentes de confrontos com policiais em serviço”, comparação que escolhe como base 2021 e 2022, os anos mais baixos da década, quando as câmeras corporais estavam em expansão.
Sobre as operações da Baixada, o governo afirma que todas as mortes foram investigadas pela Polícia Civil, com acompanhamento da Corregedoria da PM, do Ministério Público e do Judiciário, e cita 2.162 presos e 238 armas apreendidas. O resultado desse acompanhamento, três anos e mais de 2.500 mortos depois, é o do parágrafo anterior: nenhuma condenação. Se alguma existir, o Abestadão corrige esta peça e diz onde ela está.
Os números
| Indicador | Valor | Período | Território | Método |
|---|---|---|---|---|
| Mortes decorrentes de intervenção policial, estado de SP | 813 pessoas em 2024 | 2024 | Estado de São Paulo | Anuário Brasileiro de Segurança Pública, policiais civis e militares, em serviço e de folga Fonte |
| Mortes decorrentes de intervenção policial, estado de SP | 835 pessoas em 2025 | 2025 | Estado de São Paulo | Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 20ª edição Fonte |
| Mortes decorrentes de intervenção policial, estado de SP | 480 pessoas de janeiro a agosto de 2026 | janeiro a agosto de 2026 | Estado de São Paulo | SSP-SP; 393 em serviço e 87 de folga Fonte |
| Mortes por PMs em 2023 | 463 pessoas (357 em serviço, 106 de folga) | 2023 | Estado de São Paulo | MPSP/Gaesp; não inclui Polícia Civil Fonte |
| Policiais condenados pelas mortes das Operações Escudo e Verão | 0 condenações por 84 mortes | 2023 a julho de 2026 | Baixada Santista | Relatório do Instituto Vladimir Herzog; 17 de 23 casos arquivados, 9 réus Fonte |
Fontes
- Mortes causadas por policiais em São Paulo tem o maior crescimento do país
813 mortes por intervenção policial em SP em 2024, alta de quase 61% sobre 2023, a maior do país, segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
O percentual refere-se à taxa por 100 mil habitantes; o total de 2023 não é informado.
- PM de São Paulo matou uma pessoa a cada 13 horas no primeiro semestre de 2026
835 mortes em SP em 2025 (PMs e PCs, em serviço e de folga) e 813 em 2024, segundo o 20º Anuário; 339 no primeiro semestre de 2026 pela SSP; nota da SSP sobre investigação e responsabilização.
- Uma em cada cinco mortes pela polícia em agosto foi provocada por agentes de folga em SP
Janeiro a agosto de 2026 no estado: 480 mortos, 393 por agentes em serviço e 87 de folga; as mortes pela polícia são 24% das vítimas de homicídio doloso e MDIP no período. Dados da SSP-SP.
A SSP não respondeu à reportagem até a publicação.
- Mortes causadas por PMs aumentaram 35% em todo o estado de São Paulo
Mortes por PMs em serviço no estado, segundo o MPSP/Gaesp: 262 em 2022, 357 em 2023, 653 em 2024 e 703 em 2025; 103 no primeiro bimestre de 2026, alta de 35,5%. Resposta da SSP.
- Mortes por PMs em serviço atingem maior patamar na gestão Tarcísio
PMs de folga mataram 106 pessoas em 2023, 127 em 2024 e 104 em 2025; alta de 88% das mortes em serviço entre 2023 e 2025. Na nota, a SSP compara os dois primeiros anos da gestão com os da anterior.
A reportagem não atribui explicitamente a tabela à SSP.
- Relatório detalha mortes de deficientes e tortura na Operação Escudo em SP
Relatório do Instituto Vladimir Herzog: 84 mortos nas Operações Escudo (2023) e Verão (2024); 17 de 23 casos arquivados pelo MP; 9 policiais réus (4 da Rota por duas mortes, 5 por quatro mortes); nenhuma condenação informada. Governo diz que todas as mortes foram investigadas; SSP cita 2.162 presos e 238 armas apreendidas nas operações.
O texto não informa o título do relatório.
- Menos de 2% das ações policiais com morte resultam em condenação em São Paulo
Pesquisa com dados do TJSP: de 1.293 ações policiais com morte na capital entre 2015 e 2020, 122 viraram denúncia e 20 terminaram em condenação (1,5%).
Lido por republicação em agregador; período anterior ao governo Tarcísio.
- Júri absolve PMs acusados da morte de jovem em Paraisópolis (SP)
Dois PMs acusados de matar Igor Oliveira de Moraes Santos, 24, em julho de 2025, foram absolvidos pelo júri em 30/10/2026.


