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Editorial
Abestadão/Editoriais

Primavera Americana: o L de Lula e o tsunami azul

O Brasil reelegeu Lula. Nos Estados Unidos, os democratas conquistaram a Câmara e o Senado. Em nove dias, duas maiorias impuseram derrotas ao bolsonarismo e ao trumpismo. O México já mostrou a força de uma maioria de esquerda. A Espanha vota em novembro, e Milei chega a 2027 com seu principal aliado enfraquecido.

Por Redação do Abestadão4 min de leitura
Charge em aquarela com o mapa das Américas: uma corrente humana de mãos dadas atravessa o continente. Começa no Brasil com mulheres de roxo e um rapaz de camisa verde e amarela que faz o L com a mão, segue com jovens, negros, indígenas, trabalhadores de capacete, uma enfermeira e pessoas com a bandeira arco-íris, e chega a Washington, onde manifestantes erguem cartazes com uma coroa riscada e um homem deposita o voto numa urna diante do Capitólio. Por onde a corrente passa, a terra floresce; o resto do mundo segue cinza. No sul, argentinos com a bandeira do país correm de braços estendidos para se juntar à corrente.Charge
Personagens fictícios. A cena é ilustrativa. Charge gerada por IA sob direção da redação. Personagens fictícios.

Juntos, somos a América

Em 8 de fevereiro, no intervalo do Super Bowl, o porto-riquenho Bad Bunny cantou em espanhol no palco mais americano da televisão americana. Perto do fim, disse “God bless America” e começou a nomear, um a um, países das Américas, inclusive os Estados Unidos e o Canadá. Na bola que segurava estava escrito “Together, We Are America”. Juntos, somos a América, como registrou a Associated Press.

É nesse sentido que esta primavera é americana. Brasileiros, mexicanos, argentinos, porto-riquenhos e estadunidenses são todos americanos. Cada país das Américas faz parte dessa história, com sua língua, suas disputas e seu jeito de votar. Em fevereiro, Bad Bunny pôs essa ideia em cena. Meses depois, duas eleições deram ao Abestadão motivo para falar em primavera.

Primeiro, o L de Lula. Nove dias depois, o tsunami azul. No Brasil, Flávio Bolsonaro perdeu a corrida ao Planalto. Nos Estados Unidos, Donald Trump perdeu a maioria republicana nas duas Casas do Congresso. É a essas duas vitórias nas urnas que o Abestadão chama de Primavera Americana. Em cada país, grupos com interesses diferentes encontraram votos suficientes para derrotar a direita que se dizia dona da maioria.

O L de Lula

Em 25 de outubro de 2026, Lula derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos. Foi uma vitória apertada. Na reta final, o Datafolha de 22 de outubro mostrava os dois empatados em 50% dos votos válidos. Mas as pesquisas já davam pistas de onde vinha a força da candidatura: desde agosto, o Datafolha mostrava Lula à frente entre as mulheres, os eleitores de menor renda e os católicos.

O tsunami azul

Em 3 de novembro, o azul dos democratas tomou o Congresso americano. O partido conquistou a Câmara e o Senado e tirou de Trump a maioria republicana nas duas Casas. No Texas, James Talarico venceu a corrida ao Senado num estado que havia 32 anos não elegia um democrata em disputa estadual.

A pesquisa da SSRS para a Associated Press e outros veículos, publicada pela NPR, ajuda a entender o voto para a Câmara. Jovens e latinos se afastaram dos republicanos, e só cerca de um terço dos eleitores latinos disse ter votado no candidato republicano do seu distrito. Os democratas também tomaram distritos em estados como Kentucky, Missouri e Utah. A virada juntou mudanças no perfil do voto com conquistas em lugares onde o partido vinha perdendo.

O #EleNão, no Brasil de 2018, e o No Kings, nos Estados Unidos, já haviam mostrado nas ruas a capacidade de mobilização contra Bolsonaro e Trump. Em 2026, o fato novo apareceu nas urnas, com a reeleição de Lula e a virada democrata no Congresso.

O México chegou antes

O México já tinha dado uma resposta própria em 2024. Claudia Sheinbaum, candidata da coalizão liderada pelo Morena, foi eleita com 59,76% dos votos, mantendo a esquerda na Presidência. Em outubro de 2026, uma pesquisa nacional do El Financiero registrou 69% de aprovação para seu governo. O paralelo mexicano é o de uma maioria que já chegou ao poder e segue forte nas pesquisas. O próximo teste nas urnas vem em 6 de junho de 2027, quando o país renova toda a Câmara dos Deputados.

O tsunami azul também repercutiu do outro lado da fronteira. Sheinbaum destacou as vitórias de dois políticos de origem mexicana nas disputas pelos governos da Califórnia e do Texas, Xavier Becerra e Gina Hinojosa.

O L atravessa o Atlântico

“Se o Brasil conseguiu, a Espanha também consegue”, disse Pedro Sánchez, segundo a CNN Brasil, ao apontar a reeleição de Lula como inspiração para a campanha espanhola. A Espanha volta às urnas em 29 de novembro para eleger o Congresso dos Deputados e o Senado. O L já entrou na conversa. A disputa, porém, começa com vantagem da direita: na média da RTVE atualizada em 2 de novembro, o PP aparecia à frente do PSOE e teria maioria absoluta se fechasse um acordo com o Vox. É aí que se mede o alcance do exemplo brasileiro.

O papelão de Milei

Em Buenos Aires, o tsunami azul expôs o tamanho da aposta de Javier Milei em Donald Trump. O presidente argentino fez do trumpismo sua grande referência externa. Em nove dias, viu Flávio Bolsonaro perder no Brasil e seu principal aliado perder o controle do Congresso americano. A La Nación relatou pessimismo na Casa Rosada e preocupação com a continuidade do respaldo de Washington, ainda que o governo diga confiar que ele continue. Eis o papelão: Milei amarrou o prestígio internacional de seu governo a Trump e agora torce para que o aliado, enfraquecido em casa, ainda tenha força para ajudá-lo.

Milei já anunciou que vai tentar a reeleição em 2027. Até lá, o L de Lula e o tsunami azul deixam um recado para quem se acostumou a falar em nome da maioria: maioria se conta na urna.

No Super Bowl, Bad Bunny levantou uma bola para dizer quem cabe na América. No Brasil e nos Estados Unidos, milhões de eleitores disseram nas urnas quem pode formar uma maioria.

A Primavera Americana é outra coisa: não derruba ninguém, vota.

Fontes

Temas: Democracia, Eleições

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