Primavera Americana: o L de Lula e o tsunami azul
O Brasil reelegeu Lula. Nos Estados Unidos, os democratas conquistaram a Câmara e o Senado. Em nove dias, duas maiorias impuseram derrotas ao bolsonarismo e ao trumpismo. O México já mostrou a força de uma maioria de esquerda. A Espanha vota em novembro, e Milei chega a 2027 com seu principal aliado enfraquecido.
ChargeJuntos, somos a América
Em 8 de fevereiro, no intervalo do Super Bowl, o porto-riquenho Bad Bunny cantou em espanhol no palco mais americano da televisão americana. Perto do fim, disse “God bless America” e começou a nomear, um a um, países das Américas, inclusive os Estados Unidos e o Canadá. Na bola que segurava estava escrito “Together, We Are America”. Juntos, somos a América, como registrou a Associated Press.
É nesse sentido que esta primavera é americana. Brasileiros, mexicanos, argentinos, porto-riquenhos e estadunidenses são todos americanos. Cada país das Américas faz parte dessa história, com sua língua, suas disputas e seu jeito de votar. Em fevereiro, Bad Bunny pôs essa ideia em cena. Meses depois, duas eleições deram ao Abestadão motivo para falar em primavera.
Primeiro, o L de Lula. Nove dias depois, o tsunami azul. No Brasil, Flávio Bolsonaro perdeu a corrida ao Planalto. Nos Estados Unidos, Donald Trump perdeu a maioria republicana nas duas Casas do Congresso. É a essas duas vitórias nas urnas que o Abestadão chama de Primavera Americana. Em cada país, grupos com interesses diferentes encontraram votos suficientes para derrotar a direita que se dizia dona da maioria.
O L de Lula
Em 25 de outubro de 2026, Lula derrotou Flávio Bolsonaro no segundo turno com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos. Foi uma vitória apertada. Na reta final, o Datafolha de 22 de outubro mostrava os dois empatados em 50% dos votos válidos. Mas as pesquisas já davam pistas de onde vinha a força da candidatura: desde agosto, o Datafolha mostrava Lula à frente entre as mulheres, os eleitores de menor renda e os católicos.
O tsunami azul
Em 3 de novembro, o azul dos democratas tomou o Congresso americano. O partido conquistou a Câmara e o Senado e tirou de Trump a maioria republicana nas duas Casas. No Texas, James Talarico venceu a corrida ao Senado num estado que havia 32 anos não elegia um democrata em disputa estadual.
A pesquisa da SSRS para a Associated Press e outros veículos, publicada pela NPR, ajuda a entender o voto para a Câmara. Jovens e latinos se afastaram dos republicanos, e só cerca de um terço dos eleitores latinos disse ter votado no candidato republicano do seu distrito. Os democratas também tomaram distritos em estados como Kentucky, Missouri e Utah. A virada juntou mudanças no perfil do voto com conquistas em lugares onde o partido vinha perdendo.
O #EleNão, no Brasil de 2018, e o No Kings, nos Estados Unidos, já haviam mostrado nas ruas a capacidade de mobilização contra Bolsonaro e Trump. Em 2026, o fato novo apareceu nas urnas, com a reeleição de Lula e a virada democrata no Congresso.
O México chegou antes
O México já tinha dado uma resposta própria em 2024. Claudia Sheinbaum, candidata da coalizão liderada pelo Morena, foi eleita com 59,76% dos votos, mantendo a esquerda na Presidência. Em outubro de 2026, uma pesquisa nacional do El Financiero registrou 69% de aprovação para seu governo. O paralelo mexicano é o de uma maioria que já chegou ao poder e segue forte nas pesquisas. O próximo teste nas urnas vem em 6 de junho de 2027, quando o país renova toda a Câmara dos Deputados.
O tsunami azul também repercutiu do outro lado da fronteira. Sheinbaum destacou as vitórias de dois políticos de origem mexicana nas disputas pelos governos da Califórnia e do Texas, Xavier Becerra e Gina Hinojosa.
O L atravessa o Atlântico
“Se o Brasil conseguiu, a Espanha também consegue”, disse Pedro Sánchez, segundo a CNN Brasil, ao apontar a reeleição de Lula como inspiração para a campanha espanhola. A Espanha volta às urnas em 29 de novembro para eleger o Congresso dos Deputados e o Senado. O L já entrou na conversa. A disputa, porém, começa com vantagem da direita: na média da RTVE atualizada em 2 de novembro, o PP aparecia à frente do PSOE e teria maioria absoluta se fechasse um acordo com o Vox. É aí que se mede o alcance do exemplo brasileiro.
O papelão de Milei
Em Buenos Aires, o tsunami azul expôs o tamanho da aposta de Javier Milei em Donald Trump. O presidente argentino fez do trumpismo sua grande referência externa. Em nove dias, viu Flávio Bolsonaro perder no Brasil e seu principal aliado perder o controle do Congresso americano. A La Nación relatou pessimismo na Casa Rosada e preocupação com a continuidade do respaldo de Washington, ainda que o governo diga confiar que ele continue. Eis o papelão: Milei amarrou o prestígio internacional de seu governo a Trump e agora torce para que o aliado, enfraquecido em casa, ainda tenha força para ajudá-lo.
Milei já anunciou que vai tentar a reeleição em 2027. Até lá, o L de Lula e o tsunami azul deixam um recado para quem se acostumou a falar em nome da maioria: maioria se conta na urna.
No Super Bowl, Bad Bunny levantou uma bola para dizer quem cabe na América. No Brasil e nos Estados Unidos, milhões de eleitores disseram nas urnas quem pode formar uma maioria.
A Primavera Americana é outra coisa: não derruba ninguém, vota.
Fontes
- Bad Bunny's Super Bowl halftime show celebrated America – all of it – with a message of unity
No intervalo do Super Bowl, Bad Bunny disse God Bless America, nomeou países das Américas, inclusive EUA e Canadá, e segurou uma bola com a frase Together, We Are America.
A ordem completa dos países citados não foi conferida.
- Lula é reeleito presidente com vantagem no Nordeste; Flávio liderou no Sul e Centro-Oeste
Lula foi reeleito com 64,2 milhões de votos, 51,79% dos válidos.
- Datafolha: Flávio e Lula empatam em 50% de votos válidos no 2º turno
Na reta final, o Datafolha de 22/10 mostrava Lula e Flávio empatados em 50% dos votos válidos.
Pesquisa de intenção de voto.
- Datafolha: Lula lidera entre mulheres e pobres; Flávio, entre evangélicos
Em agosto, o Datafolha mostrava Lula à frente entre mulheres, eleitores mais pobres e católicos.
Pesquisa de agosto, feita entre 18 e 19/8 com 2.058 eleitores.
- Democrat James Talarico wins U.S. Senate seat, ending GOP's 32-year Texas statewide winning streak
James Talarico venceu a disputa pelo Senado no Texas, encerrando 32 anos sem vitória democrata em eleição estadual.
- Young voters led a sharp shift toward Democrats in the 2026 midterms, The AP Voter Poll finds
Jovens e latinos se afastaram dos republicanos; só cerca de um terço dos latinos votou no republicano do seu distrito.
Dados preliminares.
- See how Latinos, young voters and other demographic groups fueled Democrats' big wins
A pesquisa de eleitores é da SSRS para a Associated Press e outros veículos.
- All the House districts that flipped in the 2026 midterm elections
Os democratas tomaram distritos da Câmara em estados como Kentucky, Missouri e Utah.
- Claudia Sheinbaum mantiene ventaja con 59.76% en Cómputos Distritales; van al 99.79%
Sheinbaum foi eleita em 2024 com 59,76% dos votos.
Contagem distrital a 99,79% das atas.
- Aprobación a Claudia Sheinbaum es de 69% en octubre: Encuesta EF
Em outubro de 2026, o governo Sheinbaum tinha 69% de aprovação.
- Elecciones 2027: el calendario que debes conocer para seguir todo el proceso hasta los resultados oficiales
Em 6 de junho de 2027, o México renova toda a Câmara dos Deputados.
- Destaca triunfo de políticos de origen mexicano en intermedias de EU
Sheinbaum destacou as vitórias de Xavier Becerra na Califórnia e de Gina Hinojosa no Texas.
- Reeleição de Lula mobiliza esquerda internacional; entenda
Pedro Sánchez apontou a reeleição de Lula como inspiração para a campanha espanhola.
- Real Decreto 806/2026, de 5 de octubre, de disolución del Congreso de los Diputados y del Senado y de convocatoria de elecciones
A Espanha elege o Congresso dos Deputados e o Senado em 29 de novembro.
- Encuestas elecciones generales: PP y Vox podrían gobernar
Na média da RTVE atualizada em 2/11, o PP aparecia à frente do PSOE e teria maioria absoluta com o Vox.
Sem o Vox, o PP não chega à maioria.
- El Gobierno reconoce que la derrota de Trump fue 'peor de lo esperado', pero confía en que continúe el apoyo de EE.UU. a la Argentina
A La Nación relatou pessimismo na Casa Rosada e preocupação com a continuidade do respaldo de Washington.
O governo argentino diz confiar que o apoio continue.
- Javier Milei confirmó que va por la reelección en 2027 y ya definió su compañero de fórmula
Milei vai tentar a reeleição em 2027.
- Atos contra Bolsonaro são realizados nos 26 Estados e no DF; assista a vídeos
O #EleNão levou às ruas, em 2018, a mobilização contra Bolsonaro.
- Millions join No Kings protests in one of largest US rallies
O No Kings levou às ruas a mobilização contra Trump.
Estimativas de público dos organizadores.


