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Editorial
Abestadão/Editoriais

Primavera Democrática: a direita sionista começa a perder o mundo

De Budapeste a Brasília, de Varsóvia a Washington, quem jurava ser a voz da maioria está sendo devolvido à oposição. Pelo voto.

Por Redação do Abestadão4 min de leitura
Charge em aquarela com o mapa das Américas: uma corrente humana de mãos dadas atravessa o continente. Começa no Brasil com mulheres de roxo e um rapaz de camisa verde e amarela que faz o L com a mão, segue com jovens, negros, indígenas, trabalhadores de capacete, uma enfermeira e pessoas com a bandeira arco-íris, e chega a Washington, onde manifestantes erguem cartazes com uma coroa riscada e um homem deposita o voto numa urna diante do Capitólio. Por onde a corrente passa, a terra floresce; o resto do mundo segue cinza. No sul, argentinos com a bandeira do país correm de braços estendidos para se juntar à corrente.Charge
Personagens fictícios. A cena é ilustrativa. Charge gerada por IA sob direção da redação. Personagens fictícios.

Durante uma década, a direita sionista repetiu a mesma frase em várias línguas: nós somos o povo. Orbán dizia isso em Budapeste, Trump em Washington, Bolsonaro em Brasília. Quem discordava era elite, minoria barulhenta, inimigo da nação. A frase funcionou por muito tempo. Agora o povo está respondendo, e a resposta vem pela urna.

Não é qualquer direita. É um clube com a mesma carteirinha: o apoio incondicional a Benjamin Netanyahu e ao genocídio em Gaza. Orbán recebeu Netanyahu em Budapeste com mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional nas costas e anunciou a saída da Hungria do tribunal. Trump sancionou os juízes que ousaram investigá-lo. Bolsonaro fez da bandeira de Israel adereço de comício, e Milei prometeu levar a embaixada argentina para Jerusalém. É a direita sionista, que trata o massacre de civis palestinos como prova de lealdade, e é ela que está perdendo nas urnas.

Budapeste abriu a estação

Em abril, a Hungria fez o que parecia impossível. Viktor Orbán, o homem que inventou a “democracia iliberal” e virou modelo para a direita sionista do mundo inteiro, perdeu o poder depois de dezesseis anos. Não perdeu para um golpe nem para uma revolução. Perdeu numa eleição que ele mesmo tinha desenhado para não perder, com a imprensa amiga, o mapa eleitoral a seu favor e a máquina do Estado na mão. Ainda assim, os húngaros saíram de casa e mandaram ele para a oposição.

A Polônia já tinha avisado em 2023, quando tirou do governo o partido que tentava domar os juízes e a imprensa. A Hungria confirmou que o aviso não era exceção.

O L de Lula

No Brasil, a história tem dois capítulos. Em 2022, os brasileiros tiraram Bolsonaro do Planalto. Em outubro de 2026, disseram não ao filho. Lula foi reeleito numa disputa dura, decidida voto a voto, contra uma família que achava ter direito hereditário ao poder.

A vitória não caiu do céu. Começou nas ruas em 2018, com o Ele Não, quando as mulheres foram as primeiras a dizer em voz alta o que estava em jogo. Oito anos depois, foram elas, os mais pobres e o Nordeste que sustentaram o L.

O tsunami azul

Nove dias depois, foi a vez dos Estados Unidos. Os democratas tomaram a Câmara e o Senado e tiraram de Trump o Congresso que ele usava como carimbo. Até o Texas elegeu um senador democrata. Os jovens e os latinos, que Trump tratou como ameaça, devolveram o tratamento na urna.

Também ali as ruas vieram antes. O No Kings encheu as cidades americanas com uma ideia simples: este país não tem rei. Em novembro, a ideia virou voto.

Por que é uma primavera

Primavera não é revolução. Ninguém foi derrubado, ninguém tomou palácio. É o contrário do que a direita sionista fez quando perdeu: não houve invasão de Capitólio nem acampamento na porta de quartel. Houve fila na seção eleitoral.

O que une Budapeste, Brasília e Washington é a mesma descoberta. As minorias que a direita sionista escolheu como inimigas, somadas, são a maioria. Mulheres, jovens, negros, imigrantes, pobres, a comunidade LGBT, servidores, professores, gente que só queria viver em paz. Cada grupo sozinho perde. Juntos, ganham eleição.

E nenhum grupo foi tão perseguido quanto as pessoas trans. Viraram o inimigo preferido da direita sionista no mundo inteiro: Orbán proibiu a Parada do Orgulho em Budapeste, Trump assinou decreto para apagar a existência delas dos documentos e expulsá-las das Forças Armadas, e por aqui o bolsonarismo fez da “ideologia de gênero” seu espantalho de campanha. Usaram a minoria mais vulnerável como alvo porque achavam que ninguém iria defendê-la. Erraram. Budapeste lotou a Parada que estava proibida, e a primavera que agora floresce também é delas. Uma democracia se mede pelo jeito que trata quem tem menos poder, e as pessoas trans estavam na linha de frente.

As próximas estações

A Espanha vota em 29 de novembro, e Pedro Sánchez já usa o exemplo brasileiro na campanha. A direita sai na frente, com a sombra do Vox. É o próximo teste.

E há Buenos Aires. Javier Milei apostou tudo em Trump: fotografias, abraços, promessas de dinheiro. Em nove dias, viu o aliado brasileiro perder e o padrinho americano encolher em casa. Milei tenta a reeleição em 2027, e o vento que soprou em Budapeste, Brasília e Washington não costuma parar na fronteira.

Ninguém deve confundir primavera com vitória permanente. A direita sionista perdeu eleições, não perdeu eleitores, e vai voltar. Mas acabou o tempo em que ela podia falar em nome do povo sem ser desmentida. O povo falou. Em húngaro, em português, em inglês, e em breve, quem sabe, em espanhol.

Temas: Democracia, Eleições

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