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Reportagem
Abestadão/Internacional

Santiago Peña é preso no Paraguai, e a direita latina sofre mais uma baixa

A renúncia não salvou o ex-presidente: o Senado o destituiu por 44 votos, ele perdeu o direito a ser senador vitalício e foi detido horas depois, investigado pela quebra do banco ueno. Milei, parceiro do clube de Mar-a-Lago, ficou em silêncio.

Por Redação do Abestadão3 min de leitura
Charge em aquarela: sob a faixa Direita latina, uma fileira de dominós gigantes cai sobre o mapa da América do Sul; no primeiro, Jair Bolsonaro, de terno, segura as grades de uma cela; no segundo, Flávio Bolsonaro foge sorrindo com uma maleta com a bandeira dos Estados Unidos; no terceiro, que tomba agora, Santiago Peña aparece algemado; atrás deles, dominós em branco balançam.Charge
Caricatura de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Santiago Peña. A cena é satírica. Charge gerada por IA sob direção da redação, com retratos de Santiago Peña (domínio público), Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (Wikimedia Commons) como referência de rosto. Caricatura, não fotografia.

Na quinta-feira (5), Santiago Peña, do Partido Colorado, renunciou à Presidência do Paraguai com um plano: sair antes do impeachment e virar senador vitalício, com foro, como o Abestadão mostrou. O plano durou um dia. Na sexta (6), o Senado o destituiu, e o Ministério Público mandou prendê-lo menos de uma hora depois.

A renúncia que ninguém votou

A sessão para aceitar a renúncia não teve quórum. A Câmara, enquanto isso, aprovou a acusação por 78 votos, inclusive os do grupo de Horacio Cartes, o padrinho colorado de Peña. Sem renúncia aceita, valeu o juízo político.

Na sexta, Peña pediu 72 horas para preparar a defesa. O Senado negou. Ele não compareceu, e os advogados falaram por ele.

“Eso no es debido proceso.”

“Los bancos caen en todos lados, señores.”

A primeira frase é de Peña, sobre o prazo; a segunda, do advogado Ricardo Preda. Às 22h04 (hora local), 44 dos 45 senadores votaram pela destituição, por mau desempenho. Um senador colorado resumiu o placar:

“Así como le pusimos, le vamos a sacar.”

O vice, Pedro Alliana, tomou posse na mesma noite e completa o mandato até agosto de 2028. Destituído, Peña perdeu justamente o que a renúncia queria garantir: o posto de senador vitalício e o foro privilegiado.

Da casa para o quartel

A ordem de prisão saiu às 22h42, na causa nº 92/2026, aberta contra “Santiago Peña Palacios y otros” por lesão de confiança, com promotores de delitos econômicos, anticorrupção e delitos informáticos. Peña foi detido em casa, em Assunção, às 23h22, em regime domiciliar. Não durou. Com manifestantes na porta pedindo cadeia, foi levado de madrugada para o Regimiento Escolta Presidencial, o quartel que até a véspera fazia a sua segurança.

No sábado (7), prestou depoimento na sede do Ministério Público. Até a tarde, não havia notícia de imputação formal nem da decisão do juiz de garantias sobre onde ele fica. Carlos Carvallo, da equipe econômica de Peña, também teve a prisão ordenada e se entregou à polícia.

O banco do presidente

O ueno quebrou em 3 de novembro, quando o Banco Central paraguaio interveio por falta de solvência. Congelou o dinheiro de cerca de 3 milhões de clientes, num país de 7 milhões de habitantes. A acusação diz que Peña foi acionista do grupo dono do banco (ele afirma ter vendido a participação em 2025) e que, no governo dele, os depósitos do instituto de previdência dos trabalhadores no ueno subiram de 70 bilhões para 2,15 trilhões de guaranis, acima do limite da lei. A defesa nega e diz que a operação teve aval da Controladoria.

Um deputado da oposição, Freddy Franco, preferiu a definição curta:

“La caída de Ueno fue un atraco, el banco asaltó a la gente.”

O clube de Mar-a-Lago

Peña era sócio-fundador do Escudo de las Américas, lançado em Miami com Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele e Daniel Noboa. Da Casa Rosada, até a noite de sexta, nenhuma palavra sobre o colega. José Antonio Kast, presidente do Chile, tomou distância do caso, de Madri. Quem falou foi Lula, que desejou sucesso a Alliana e disse esperar recebê-lo em Brasília.

Na Argentina, o deputado Juan Grabois fez a conta em voz alta:

“Tic tac. Se van cayendo todos los amigos de Milei.”

A lista das baixas

Peña é o terceiro aliado de Milei e Trump a cair na região em pouco mais de um ano:

  • Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo, em setembro de 2025, a 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe, e cumpre prisão domiciliar desde março.
  • Flávio Bolsonaro perdeu para Lula em 25 de outubro, por 51,79% a 48,21%, e foi para os Estados Unidos três dias depois.
  • Santiago Peña renunciou, foi destituído e dormiu num quartel.

No Equador, Noboa perdeu as quatro perguntas do referendo de novembro de 2025, incluída a que liberava bases militares estrangeiras.

A contabilidade honesta tem a outra coluna. No mesmo período, a direita ganhou no Chile, com Kast; na Bolívia, com Rodrigo Paz, que encerrou 20 anos de MAS; e em Honduras, com Nasry Asfura, apoiado por Trump, numa contagem de 40,26% a 39,54%. Milei venceu as legislativas de outubro de 2025.

A diferença está no tipo de derrota. As vitórias vieram das urnas; as baixas vieram de tribunais, de bancos quebrados e de malas feitas para os Estados Unidos. O analista paraguaio Alfredo Boccia, ouvido pela Perfil, diz que a queda de Peña “no tiene nada que ver con la cuestión ideológica”. Os 3 milhões de clientes do ueno talvez concordem: o banco não perguntou a ideologia de ninguém antes de congelar o dinheiro.

Fontes

Temas: Democracia, Renda

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